PROJETO FÊNIX - 2003
UM NOVO FUTURO PARA BLINDADOS SOBRE RODAS NO
EXÉRCITO BRASILEIRO

 

          Coube ao Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP) a manutenção de 5º Escalão das Viaturas Blindadas sobre Rodas CASCAVEL EE-9 Modelo VII-9 e Viatura Blindada Transporte de Pessoal EE-11 URUTU Modelo VI-4, de fabricação Engesa, nos anos 80. A meta é recuperar algo em torno de 250 viaturas, dos modelos mais novos, uma vez que estes veículos nunca sofreram uma manutenção neste nível e com isso padronizá-los.

          Até o momento mais de oitenta veículos já passaram por esta manutenção e já se encontram operacionais nas unidades a que foram destinados.

          Isto caberia à Engesa, caso ela ainda existisse, mas com seu fechamento definitivo em 1993, não só o Exército Brasileiro, mas também seus clientes no exterior ficaram desamparados e havia apenas duas opções: ou adquiria-se no exterior viaturas para substituírem estas, a um custo bem elevado ou se recuperaria o que fosse possível, a um custo relativamente baixo, pois ele sai no valor de 10% do preço original do veículo, que era da casa de 300 mil dólares em média, quando de sua aquisição.

          A idéia para a recuperação em larga escala destas viaturas remonta a 1998, culminando os estudos em 2000 e iniciando-se em 2001. Foi então montado uma linha de recuperação, prevista para a conclusão dos trabalhos em 2005, que na realidade é quase uma refabricação dos veículos blindados sobre rodas, de certa forma mais complexa, pois numa linha normal de fabricação todas as peças são novas e neste caso é necessário desmontar cada um dos veículos, item por item, procedendo até as modificações para melhorar ainda mais os defeitos que por ventura existam desde quando de sua fabricação, melhorando-os e até mesmo inovando-os, o que visa permitir um sobrevida destas viaturas até o ano de 2011, quando a Nova Família de Blindados sobre Rodas (NFBR), já esteja sendo entregue ao Exército Brasileiro.

          Isto vem comprovar, que a revitalização só se tornou viável pois os veículos são totalmente brasileiros, concebidos e produzidos por nós, pois o maior patrimônio de uma nação são os seus cérebros, as grandes nações que foram totalmente aniquiladas, ressurgiram das cinzas, por possuírem conhecimento, coisa impossível de ser tirado. (ver http://www.defesanet.com.br/rv/agsp/index.htm e http://www.defesanet.com.br/rv/vtrbld1/vtrbld.htm)


          O que foi acima mencionado passa a ser hoje caracterizado como a FASE 1 e agora com a denominação de PROJETO FÊNIX iniciará a FASE 2, cuja função será a de modernizar os sistemas de armas para as viaturas EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu que agregariam os seguintes itens:

No EE-9 CASCAVEL:
- realizar tiro em movimento;
- possuir giro elétrico na torre;
- adquirir e engajar alvos sob condições restritas de visibilidade;
- incorporar dispositivos de visão noturna (luz residual) e de telemetria;
- incorporar esquipamentos integrantes do Sistema de Comando e Controle de Unidade;
- permitir que a tripulação possa operar utilizando vestimentas adequadas para o combate em ambiente QBN (Químico,    Bacteriológico e Nuclear);

No EE-11 URUTU:
- adquirir e engajar alvos sob condições restritas de visibilidade;
- incorporar dispositivos de visão noturna (luz residual) e de telemetria;
- incorporar esquipamentos integrantes do Sistema de Comando e Controle de Unidade;
- permitir que a tripulação possa operar utilizando vestimentas adequadas para o combate em ambiente QBN (Químico,    Bacteriológico e Nuclear);
- portar uma torreta compatível com metralhadora .50, 7,62mm ou lançador automático de granadas de 40mm.

          A previsão para a modernização destes sistemas está prevista para iniciar-se a partir do ano que vem (2004) e visam a atender às necessidades dos Regimentos de Cavalaria Mecanizados (R.C.Mec) e Esquadrões de Cavalaria Mecanizados (Esqd. C. Mec) de imediato.

          Para levar adiante este processo de modernização, vários itens podem ser produzidos pela indústria nacional, algumas empresas brasileiras já estão participando de licitações no exterior para revitalizar parte dos veículos exportados pela extinta ENGESA, cuja produção total de EE-9 Cascavel, incluindo todas as suas versões alcançou a cifra de 1738 unidades, das quais o maior comprador foi o Exército Brasileiro com 409 adquiridos, seguido da Líbia (400), do Iraque (364), Colômbia (128), Chipre (124), Chile (106), Zimbabwe (90), Equador (32), Paraguai (28), Bolívia (24), Uruguai (15), Gabão (12) e Suriname (6) enquanto que a do EE-11 Urutu, em todas as suas versões alcançou a cifra de 888 unidades, destas 223 ao Brasil (Exército e Marinha), 148 ao Iraque, 132 ao Dubai, 82 a Jordânia seguidos de Colômbia (56), Líbia (40), Venezuela (38), Chile (37), Equador (32), Angola (24), Tunísia (18), Suriname (16), Bolívia e Paraguai (12 cada), Gabão (11) e Zimbabwe (7). (ver http://www.defesanet.com.br/rv/engesa/export.htm)

          Empresas como a COLUMBUS COMERCIAL IMPORTADORA E EXPORTADORA LTDA, de São Paulo e UNIVERSAL IMPORTAÇÃO, EXPORTAÇÃO E COMÉRCIO LTDA, do Rio de Janeiro já estão participando da Fase 1 no AGSP e ainda estão oferecendo seu serviços a diversos clientes no exterior para repotenciar, principalmente veículos blindados EE-9 e EE-11.

          Vê-se que ainda existe um mercado importante usando o material brasileiro e querendo mantê-lo em pleno funcionamento, com algumas exceções, pois até o embargo contra a Líbia já foi suspenso pelas Nações Unidas.

          Recentemente uma empresa israelense (NINDA CORPORATION LTD) adquiriu do Exército Chileno 70 EE-9 Cascavel MK II e 34 EE-11 Urutu, os quais deverão sofrer as mesmas modificações previstas no Projeto Fênix Brasileiro e depois serão revendidos a algum país. Acredito que empresas brasileiras participarão destas melhorias.

          A Colômbia tem empregado o EE-9 Cascavel em combates reais na sua luta contra as FARC e vem conseguindo alguns resultados, o que mostra que o veículo, mesmo sendo um produto dos anos 80 ainda se mantém totalmente operacional, dos quais 46 já foram modernizados por uma empresa local, com o apoio das empresas brasileiras citadas.

          No momento em que falamos sobre a Nova Família de Blindados sobre Rodas para o Exército Brasileiro, vemos que o próprio Projeto Fênix prevê uma Fase 3 que seria a produção do que até o momento foi chamado de CASCAVEL e UTURU GERAÇÃO II, o que não quer dizer que venhamos a produzir novamente estes veículos, que não atenderia de forma alguma, visto tratar-se de um projeto ultrapassado, principalmente no que tange a suspensão e o veículo já está no seu limite, dificultando a incorporação de novas blindagens adicionais e o alto custo para uma nova torre com novo canhão.

          A empresa belga CMI, desde a Eurosatory 2002 lançou no mercado um kit para modernização de veículos militares sobre rodas e lagartas e que passa pelos blindados EE-9 Cascavel, onde prevê-se a mudança do canhão para um versão mais nova, a Mk-3, novo freio de boca, possibilitando-o a disparar munição APDSFS (Flecha) e incorporando os itens constantes da relação mencionada para a nova modernização (Fase 2), e oferece ainda uma nova torre em alumínio, maior que as atuais em uso, com um novo canhão de 90mm, o Mk-8, que segundo eles possui o poder de fogo equivalente a um canhão de 105mm do tipo L-7 que empregamos nos Carros de Combate Leopard 1 A1 e M-60 A3 TTS.


          O custo de tudo isto será muito alto, e coincidência ou não, pelo menos uma empresa brasileira, a Columbus, possui meios de tornar realidade as modificações previstas pela Fase 2, não precisando trocar o canhão, apenas modernizando-o, pois é o que ela oferece a clientes seus no exterior. Sem dúvida uma solução brasileira para um problema brasileiro.

          Vamos esbarrar em optrônicos, pois tudo o que envolver ótico/eletrônico e ótico/mecânico será importado, mas pode vir de países com situações análogas às nossas, e com problemas muito mais sérios, como é o caso da Índia, África do Sul, China, Rússia, que com parcerias importantes e investimentos em dez anos poderemos dar um grande salto nesta área.

          Com relação a munição de 90mm APDSFS, é bom lembrar que ela chegou à fase de protótipos quando a Imbel de Juiz de Fora pertencia à Engesa, portanto os desenhos, alguns engenheiros e técnicos e os protótipos existem e podem dar continuidade a este desenvolvimento, mesmo precisando de importar a “flecha” em si, mas os demais componentes podem e devem ser produzidos aqui, basta vontade política e visão estratégica, ambos em falta no país há algum tempo.(ver http://www.defesa.ufjf.br/arq/art6.htm)

          No que se refere a Fase 3, esta de qualquer forma, precisará de investimentos e porque não investir num projeto que já existe, chegou a possuir um protótipo, o qual infelizmente já não mais existe, apenas a carcaça está em poder de um colecionador, mas os demais itens foram devolvidos aos países de origem para pagar dívidas da massa falida Engesa, mas todos os desenhos, projetos e seus criadores existem e os direitos de produção pertencem à Imbel.

          O projeto a que me refiro é o EE-18, denominado SUCURI II (ver foto abaixo equerda )um conceito 6x6 revolucionário que inspirou diversos projetos no exterior alguns apenas para análise de conceitos, como o Vickers Mk-11 (ver foto abaixo direita) e por ter influído de certa forma no conceito de torre do renomado CENTAURO 8x8, inclusive já testado pelo EB, visto ter existido uma parceria entre a Oto-Breda com a Engesa para desenvolverem este conceito de torre com canhão L-7 de 105mm.


          É um conceito 6x6, moderno e atual, e que poderá ser ter toda uma família dele derivada, o qual se encontra arraigado no Exército Brasileiro desde quando empregamos os primeiros M-8 Greyhound, na segunda guerra mundial, na Campanha da Itália em 1944/45 através do 1º Esquadrão de Reconhecimento e depois serviu de base para desenvolvermos os melhores projetos nacionais que nasceram dentro do Exército, com verbas geradas pelo próprio Exército, que permitiram a construção de mock-ups e protótipos no extinto Parque Regional de Motomecanização da 2ª Região Militar – PqRMM/2 em São Paulo, onde um grupo de engenheiros militares deram forma e vida a este e outros importantes projetos genuinamente brasileiros que repassados à indústria privada gerou a família Cascavel e Urutu e foram largamente exportados e participaram de guerras em situações reais de combate, cujo fruto foram diversos aprimoramentos no projeto inicial, gerando diversas versões.

          Talvez o que nos impede de avançarmos seja o desconhecimento do passado, seus erros e acertos, a falta de manter uma memória nacional agrupada em um único lugar que seria a base prática para agregarmos uma massa crítica que pudesse se beneficiar dela e gerar juntos com diversos órgãos militares, como IMBEL, IME, CTEx, IPD, CIBld, CAEx, que em parceria com empresas privadas pudessem dar continuidade aos projetos viáveis e à criação de novos.

          Por exemplo, o Centro de Instrução de Blindados General Walter Pires no Rio de Janeiro, poderia ser elevado à categoria de ESCOLA DE BLINDADOS e nele ser agregado um MUSEU DE TECNOLOGIA MILITAR, onde reuniríamos todo os projetos brasileiros, desta área, para que servissem de base para dar continuidade na parte doutrinária e tecnológica, evitando que vários protótipos ficassem perdidos em diversas unidades praticamente sem função alguma que ajudassem na formação de combatentes e engenheiros militares e que fossem usados a título até comparativo com o que possuímos na atualidade, visto ser difícil adquirir alguns exemplares no exterior de diversos modelos que nos ajudassem a definir o que realmente precisamos e que pode e deve ser agregado à realidade vivida por nós.

          Tudo o que se puder criar, produzir e desenvolver nesta área é de vital importância para nossa independência tecnológica em vários campos e constituirá numa base de dados e conhecimentos indispensável para que possamos ocupar o nosso lugar a nível regional, pois não basta só o poder político se não tivermos o poder militar para impor nossas vontades e nos proteger mesmo que parcialmente no futuro sombrio que se vislumbra para este novo século.

          Precisamos agregar em uma mesma região todos os órgãos ligados a esta área, pois o passado nos mostra que o que deu certo era porque estavam próximos, e juntos pensavam, viviam e falavam tecnologia. Nosso erro foi afastarmos estes órgãos a partir de 1979, quando vários deles ficaram deslocados dos centros tecnológicos, outros foram extintos, mas naquele momento pensou-se em criar junto a eles centros de excelências, mas na prática isto não aconteceu.

          Várias mudanças estão por vir com a criação, extinção e transferências de diversas unidades militares pelo país, mas quando isto for ser concretizado, faz-se necessário levar em conta, principalmente no que se refere a áreas de tecnologia que elas estejam próximas ou até mesmo dentro do centro tecnológico brasileiro que continua a ser São Paulo.

          Desta forma pouparemos tempo e dinheiro para levarmos adiante projetos e soluções brasileiras que poderão dar uma grande independência a médio e longo prazo para a produção de equipamentos militares MADE IN BRAZIL, como ocorreu num passado não muito distante e abrir nossos olhos para compreendermos e entendermos a importância de investimentos nesta área tão vital e necessária, incompreendida, que envolve a termo DEFESA.

          TECNOLOGIA NÃO SE COMPRA, DESENVOLVE-SE.