O FUTURO INCERTO DA ARMA BLINDADA BRASILEIRA

 

 

 

          Com a colocação em prática a partir de janeiro de 2004, do PLANO BÁSICO DE ESTRUTURAÇÃO DO EXÉRCITO, a arma blindada brasileira sofrerá tremendas mudanças que irão influir não só dentro de toda a organização militar brasileira como envolverá um novo equilíbrio de forças no Cone Sul do continente.

          O centro principal envolvendo carros de combate será o Rio Grande do Sul, deslocando desta maneira um grande efetivo para as fronteiras sul do país, num momento em que as antigas tensões pareciam ter sido definitivamente extirpadas. Caso estas mudanças realmente ocorram, ficará evidente que os nossos inimigos estão no sul, países com os quais mantemos boas relações e que sem dúvida reagirão a esta grande concentração de forças próximos à sua fronteira.

          A primeira unidade a se deslocar em 2004 será o Centro de Instrução de Blindados “General Walter Pires” (CIBld) do Rio de Janeiro para Santa Maria (RS), ficando longe de todos os outros Centros e Escolas que atualmente se agregam na região Sudeste, é claro que há algumas exceções, mas nada que quebre este equilíbrio. (ver artigo http://www.defesanet.com.br/rv/et/et.htm)

          A partir de 2006 seguirão seus passos a 5ª Brigada de Cavalaria Blindada, única no Exército, que com esta reestruturação extinguiu-se na sua composição o 3º Regimento de Carros de Combate (3º RCC), a 1ª Companhia de Comunicações Blindada (1ª Cia.Com.Bld), o 1º Batalhão Logístico (1º B.Log). Outros como o 7º Grupo de Engenharia será enviado para Osasco – SP, ficando subordinado ao Comando Militar do Sudeste e não mais do Leste, o mesmo poderá ocorrer com o 1º Esquadrão de Cavalaria Mecanizado que deixará Valença, RJ indo para Caçapava, SP. Permanecem, acompanhando-a, o 24º Batalhão de Infantaria Blindado, 1º Regimento de Carros de Combate, 1ª Companhia de Comando Blindada, 1º Esquadrão de Comando, 1º Pelotão de Polícia do Exército, 1º Grupo de Artilharia e a 5ª Bateria de Artilharia Antiaérea.

          O objetivo será transformar as Unidades e Grandes Unidades Blindadas em Tipo IV, passando a ser de um único tipo - Brigadas Blindadas, quaternárias e equilibradas, com dois BIB e dois RCC.

          Na área do Comando Militar do Leste as unidades mais importantes que continuarão empregando veículos blindados sobre rodas serão o 15º Regimento de Cavalaria Blindada (Rio de Janeiro), e o 4º Esquadrão de Cavalaria Mecanizada de Santos Dumont, MG, o Regimento Escola Andrade Neves, último remanescente de carros de combate com 8 Leopard 1 A1.

          Mudanças também ocorrerão no âmbito do Comando Militar do Sudeste, com a transferência do 2º Regimento de Carros de Combate (2º RCC) de Pirassununga para Ponta Grossa – PR., que perderá seus Leopard 1 A1 e receberá os M-60 A3 TTS, oriundos do Rio Grande do Sul, sendo que as unidades blindadas mais importantes serão o 11º Esquadrão de Cavalaria Mecanizado de Pirassununga, , em Campinas e Osasco, SP.

          Na região centro-oeste permanecerá o 20º Regimento de Carro Blindado, em Campo Grande com os obsoletos M-41 C, os 10º, 11º e 17º Regimento de Cavalaria Mecanizada, respectivamente em Bela Vista, Ponta Porã e Amabai.

          Na área do Distrito Federal o 3º Esquadrão de Cavalaria Mecanizadoe nada mais. Na região norte e nordeste sobram o 12º Esquadrão de Cavalaria Mecanizado em Boa Vista, e o 1º Pelotão de Cavalaria Mecanizada em Marabá, bem como o 16º Regimento de Cavalaria Mecanizadaem Bayeux e 8º Esquadrão de Cavalaria Mecanizado de Recife.

          Nenhuma unidade de carro de combate estará presente nas regiões sudeste, centro oeste e nordeste, onde existem grandes extensões aptas ao seu emprego, ficando apenas unidades com os velhos M-41 C, remanescentes quando este era o carro de combate principal no Exército Brasileiro até a segunda metade dos anos 90, com todos os seus problemas oriundos de uma modernização realizada no país que não trouxe soluções. (ver artigo http://defesanet.web.terra.com.br/m41/)

          A base para a defesa nestas regiões ficará a cargo de unidades equipadas com veículos sobre rodas Cascavel e Urutu, alguns passando por uma grande manutenção de 5º escalão no Arsenal de Guerra de São Paulo, mas que na realidade apenas prolongou sua vida útil no Exército, permanecendo praticamente o mesmo carro que não pode ser empregado em situações extremadas que necessitem de apoio de carros de combate de lagartas, sendo vulneráveis a diversos tipos de armas comum nos nossos dias, bastando apenas acompanhar conflitos recentes para se ter uma idéia da letalidade das mesmas. (ver artigo http://www.defesanet.com.br/rv/agsp/index.htm).

          Todo o resto estará na região sul do país, no Paraná estarão os M-60 A3TTS e no Rio Grande do Sul os Leopard 1 A1, onde pelo menos poderá ser constatada a inferioridade deste último em relação ao primeiro.

M-60 A3 TTS do Centro de Instrução de Blindados (autor)
Leopard 1 A1 - 1º e 3º Regimento de Carros de Combate (autor)


          Concentrar tropas num país de dimensões continentais como o nosso longe das regiões mais importantes e mais populosas é algo temerário, principalmente no cenário atual que este novo século nos tem mostrado, visto que não há mais condições de embates entre grandes exércitos como no século anterior.

          Na nossa história, a década de 60 e 70 mostrou muito bem a importância de unidades deste tipo para ações rápidas, precisas e às vezes intimidatórias...

          Hoje os conflitos são rápidos, localizados e realizados com forças de deslocamentos aerotransportados atuando com grande rapidez e mobilidade, armadas com veículos modernos que se deslocam com grande astúcia no território inimigo, destruindo e assegurando áreas para desembarque de grande quantidade de material para consolidar uma conquista dentro do menor tempo possível e com o mínimo de baixas, longe do litoral e em áreas propícias para o emprego de blindados.

          Como poderemos fazer frente a uma situação deste tipo nas regiões sudeste, centro-oeste e nordeste do Brasil?

          Com quais unidades e equipamentos as Forças Armadas farão frente a uma intervenção deste tipo no futuro?

          Deslocar carros de combate é algo complicado, principalmente num país extenso como o nosso, onde o último exercício prático foi feito na região de São Paulo em 2001, numa área relativamente pequena, envolvendo quatro empresas ferroviárias a um custo altíssimo, tanto que não houve outro deste tipo até o momento, pela simples razão de termos privatizado nossas ferrovias e não termos colocados cláusulas nos contratos que previssem o transporte de material de emprego militar.

          Para transportá-los em carretas, coisa rara no Exército, precisaremos de ter supremacia aérea, mas todos sabemos das condições atuais da Força Aérea e a Aviação do Exército não possui meios suficientes para uma cobertura a grandes distâncias, em razão da penúria que vem vivendo nos últimos quinze anos os orçamentos militares, hoje a cargo do Ministério da Defesa.

          A escassez de recursos é clara ao longo de algumas décadas no País, e o que se vislumbra no horizonte não é que dias melhores virão.

          Para se ter uma idéia, serão necessários a venda de alguns quartéis em áreas valorizadas, como por exemplo no Rio de Janeiro, os do 24º BIB e 15º RCMec, como aporte financeiro para concretizarem estas mudanças.

          Existem diversos projetos que não saíram do papel, como um novo reequipamento para as Forças Armadas, sucateadas e sem perspectivas de adquirirem material “Made in Brazil”, visto que nossas indústria de defesa estão em situação igual ou pior, não se definem que tipo de equipamentos e qual será o uso destas forças no futuro. (ver artigo http://www.defesanet.com.br/rv/engesa/export.htm).

          Os políticos querem usá-las para combater bandidos e narcotraficantes, querem transformá-las em força policial, etc. Já foi ventilado pelos Estados Unidos que todas as forças militares sul-americanas fossem transformadas em uma espécie de Guarda Nacional, sem equipamentos sofisticados.

          A situação na própria região é complicada, grandes problemas na Colômbia, por exemplo, poderão vir para o território brasileiro. Problemas de contrabando nas fronteiras com Paraguai e Bolívia principalmente, onde entram de tudo, desde equipamentos eletrônicos a armamento e drogas, aumento do crime organizado nas grandes cidades, tudo isto somados a outros fatores podem vir a desestabilizar o país.

          Estão previstos a criação de unidades especiais para pronto emprego, no Centro-Oeste, mas não serão providas de blindados.

          Aguardam a Nova Família de Blindados sobre rodas prevista inicialmente para 2010, mas que no momento tudo indica que está sendo posta de lado devido as restrições orçamentárias cada vez menores.

          Prevê-se ainda o lançamento do Projeto Fênix (ver artigo http://www.defesa.ufjf.br/arq/Art%2020.htm), cuja idéia é repotenciar novamente um determinado número de EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu, dotando-os de equipamentos mais modernos, como giro elétrico da torre, novos optrônicos que permitiria ver e atirar à noite, além de modernização de seu canhão de 90mm que passaria a poder disparar munição flecha e até num segundo momento produzir um novo veículo que está sendo chamado de Cascavel II e Urutu II.

          No momento está ocorrendo a formalização de um Protocolo de Intenções entre a Imbel e indústrias européias, sendo que uma delas é a Patria Vehicles Oy da Finlândia, pois existe interesse em vender ao Brasil veículos blindados 6x6 da família XA-180 e 220 SISU, que poderiam ser montados no Arsenal de Guerra de São Paulo, inclusive para tentar exportá-los a países da região e de outras, como forma de modernizar as unidades que empregam este material em parte.
Como ficará a indústria de material de defesa brasileira? Caso isto venha a ocorrer, será um golpe mortal e final nos últimos remanescentes de um grande projeto nacional, que não foi compreendido e que tem pago um elevado preço.

          Tudo isto ainda está no papel, e já estão realizando modificações na Força Blindada Brasileira. Da forma que ela está, não pode ficar, mudanças são necessárias, mas precisamos de unidades de carros de combate próximas aos grandes centros industriais e populacionais do país, em regiões vitais, não sabemos o que poderá acontecer no amanhã, prevenir ainda é uma forma importante de se evitar danos maiores e às vezes irreversíveis.

          Os países mais adiantados já estão, neste século, empregando carros de combate em zonas urbanas, é só olharmos para os Russos, Americanos, Israelenses, Franceses, Ingleses, Alemães, etc. Isto já é uma realidade, tanto que na Eurosatory de 2002, no stand da GIAT, estava sendo exibido uma versão em maqueta do Carro de Combate Principal Leclerc para combate urbano em 2017, inclusive ostentando camuflagem para este fim.

Maqueta do Carro de Combate Principal LECLERC na versão de luta urbana apresentado na Eurosatory 2002. (autor)


          O mundo está evoluindo para os embates do século XXI e nós estamos agindo como se estivéssemos nos preparando para a Segunda Guerra Mundial...