DA SUB-UNIDADE ESCOLA MOTOMECANIZADA À ESCOLA DE MATERIAL BÉLICO
65 anos de aprendizado

 

          Uma grande novidade entre nós foi a Motomecanização, surgida por ocasião da Primeira Guerra Mundial (1914/1918) e muito bem absorvida pelos grandes Exércitos Europeus e Norte Americano, que envolvia além dos veículos de transporte, carros blindados e o recém criado carro de combate.

          No Brasil, a motomecanização se desenvolve no Exército a partir de 1919 e a arma blindada em 1921 quando são adquiridos 12 Carros de Combate Renault FT-17 e a criação da Companhia de Carros de Assalto, extinta em 1932, por não conseguir motivar a oficialidade brasileira acerca destes novos engenhos de guerra. (foto 1) (ver www.defesanet.com.br/ft17/parte1.htm).


Foto 1- Carros de Combate Renault FT-17 da Companhia de Carros de Assalto (autor)
          

A Escola de Material Bélico – EsMB, teve suas origens no final dos anos 30, época de grande transformação no mundo e principalmente no Exército Brasileiro, onde novas idéias estavam ganhando terreno e muitas novidades sendo absorvidas no meio militar brasileiro ainda que lentamente.

          “A tradicional Cavalaria repudiava os meios motomecanizados como inimigos de suas tradições. Além disso, diziam os cavalarianos ortodoxos, resultavam garantidamente incapazes de substituírem os préstimos do cavalo. Condescender com o motor era traição pura, nos arraiais da Cavalaria.” (1)

          Mas o mundo caminhava para a Segunda Guerra Mundial (1939/1945) e já não era mais possível conter a marcha da evolução, tanto que em 25 de maio de 1938 foi criada no Rio de Janeiro a Sub-Unidade Escola Motomecanizada, que veio ocupar em Deodoro as instalações da futura Escola de Engenharia. (foto 2)

Foto 2 - Aula prática em Mecânica de Automóvel (autor)

          Seus primeiros veículos blindados foram 23 Fiat Ansaldo CV 3 35 II Tipo adquiridos na Itália após os relatórios do Gen. Waldomiro Castilho de Lima, observador brasileiro na guerra da Abissínia, que ficou impressionado com a capacidade daqueles veículos. Esta sub-unidade era comandada pelo Capitão Carlos Flores de Paiva Chaves, o homem que consolidou os blindados de vez no Brasil. (fotos 3, 3a e 3b)

Foto 3 Fiat-Ansaldo CV 3 35 II Tipo (autor)

Foto 3a - Quadro demonstrando a criação do CIMM em 1939 (EsMB)

Foto 3b - Ministro da Guera General Eurico Gaspar Dutra, à esquerda e Major Durval, Comandante do CIMM, no ato de inalguração em março de 1939 (autor)

          Em 21 de janeiro de 1939 esta sub-unidade foi transformada em Centro de Instrução de Motorização e Mecanização – CIMM e a ela foram incorporados, além dos Fiat-Ansaldo, 05 Renault FT-17, remanescentes da Companhia de Carros de Assalto formada em 1921 pelo Cap. José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, o pioneiro brasileiro da arma blindada e autor da primeira obra publicada na América Latina intitulada OS TANKS NA GUERRA EUROPÉA. (foto 4)

Foto 4 - Alunos e Instrutores do CIMM em 1939 (EsMB)

Foto 4a - Fiat-Ansaldo CV 3-35 II Tipo do Esquadrão de Autometralhadoras do CIMM, vencendo um obstáculo em demonstração de 1939. (autor)

         A luta entre os defensores do Cavalo e os defensores do Motor continuava e em 1941 num ciclo de palestras sobre a Cavalaria Moderna, foi proferida uma palestra pelo então 1º Ten. Umberto Pelegrino, publicada sob a forma de separata pela revista Defesa Nacional, nº 52 e intitulada A MOTO-MECANIZAÇÃO E A CAVALARIA, onde analisava o emprego de veículos blindados ou não sobre rodas ou lagartas que tanto furor causavam no mundo naquele momento pelas rápidas vitórias do Exército Alemão na sua tática de Blitzkrieg, conquistando a Polônia e a França rapidamente. (fotos 5 e 6)

Foto 5 - O dilema (autor)


Foto 6 Palestra do Umberlo Pelegrino (autor)


         O tema gerou grande empolgação, tanto que o Jornal O GLOBO em sua edição de 1º de Julho de 1941 publicou: “Teve lugar hoje, no Centro de Instrução de Moto-mecanização, a cerimônia da abertura das aulas do curso destinado aos oficiais superiores.”

         Na realidade a primeira aula foi uma palestra proferida pelo General Newton Cavalcante, então Diretor de Moto-Mecanização do Exército, sobre um tema então muito recente, que grande transformação havia trazido para os exército em guerra, tanto na Europa como no Extremo Oriente, duas guerras distintas que em breve (dezembro 1941) se transformaria na Segunda Guerra Mundial com a entrada dos Estados Unidos. O tema da palestra foi A MOTO-MECANIZAÇÃO NO BRASIL e ele ressaltou que “o curso destina-se a fornecer aos oficiais superiores e do Estado Maior os elementos de ordem técnica necessários e indispensáveis à utilização dêsses poderosos engenhos de guerra, empregando-os nas operações militares. A moto-mecanização surgiu como consequência dos ensinamentos da grande guerra (1914 – 1918), com o objetivo bem definido de poupar o mais possível, nos campos de batalha, a vida dos combatentes e, ao mesmo tempo, fornecer aos exércitos uma potência de choque pela qual pudessem decidir as batalhas em curto prazo. Organizá-las com material apropriado aos diversos teatros de operações e aos objetivos visados é tarefa elementar dos departamentos técnicos, em colaboração com os estados-maiores, porém, a manutenção das mesmas e a fabricação dêsse material dependem exclusivamente da indústria, cujo aparelhamento permita produzir no país o material destinado ao preparo do pessoal e, na guerra, o imprescindível para impôr ao inimigo a vontade de govêrno. Com a criação da arma moto-mecanizada, novas necessidades se nos apresentam e impõem, destacando-se, dentre estas, a que se relaciona com a fabricação de motores e carros blindados. As nações que não dispõem integralmente, dentro de seu território, de fontes naturais produtoras de carburantes líquidos, têm a sua economia, o seu progresso e, até, a sua defesa dependentes de países estrangeiros. A conciência de nossa nacionalidade se formará quando a educação for um sistema de disciplina intelectual, espiritual e moral, tendo por base o trabalho manual que nobilita e torna o homem capaz de bastar-se a si próprio. Os sucessos obtidos pela moto-mecanização, na guerra atual, atraem e empolgam as atenções de todos os exércitos.
Finalmente, a energia e a capacidade produtiva de nossa gente, o seu poder de assimilação e a vontade de vencer, são qualidades inatas do brasileiro e representam fatores decisivos para a realização de seus ideais. Meus camaradas: meditem sôbre as minhas palavras e, empregando todas as energias físicas e morais, cooperem com o govêrno para a grandeza e progresso do Brasil”
.(2)

          Em meio a toda esta efervescência o Brasil se posiciona ao lado dos Aliados a partir de 1942 e passa a receber forte influência e modernos equipamentos dos Estados Unidos.

          Entendendo estas importantes mudanças o CIMM é transformado em ESCOLA DE MOTOMECANIZAÇÃO - EsMM em 07 de julho de 1942 e passa a receber os primeiros carros de combate M-3 Stuart, e tem como missão o ensino e o emprego tático de material automóvel, o que permitirá reformular e modernizar o Exército Brasileiro, fruto da compra de uma Divisão Blindada completa elaborada pelo então ministro da guerra General Eurico Gaspar Dutra, que nunca foi totalmente entregue, mas que mostrou uma grande visão de modernidade. (foto 7)

Foto 7 - Modernos Carros de Combate Leve M-3 recem chegado para a EsMM em 1942. (Arquivo Paulo Cid Fellows)

         A Escola terá grande responsabilidade na formação da Força Expedicionária Brasileira, a nossa FEB que lutou no teatro de operações da Itália em 1944/45.

         Passa então a receber os modernos Carros de Combate M-3 Lee e M-4 Sherman, além de veículos blindados 4x4 M-3 Scout Car e Meia Lagartas (Half-Track) M-2 e outros modelos. (Fotos 8 e 9)

Foto 8 - Modernos Carros de Combate Médio M-3 Lee. (Arquivo Paulo Cid Fellows)

Foto 9 - Modernos Carros de Combate M-4 Sherman. (Arquivo Paulo Cid Fellows)

         No pós guerra, uma das mais ousadas missões foi a Operação Natal, realizada em 27 de outubro de 1955, quando tem a missão de levar todo o material automóvel destinado ao 3º Grupo de Canhões Antiaéros 88 (3º G Can AAé), por via terrestre do Rio de Janeiro a Natal, numa operação fantástica para os padrões da época, visto não existirem estradas adequadas para esta missão, que contou com manutenção até 3º escalão ao longo da viagem.

         Para se ter uma idéia da dimensão desta operação, foram levadas 83 viaturas de variadas características e toneladas, desde jipe a caminhões, mais 50 reboques e envolveu um tropa de 234 militares, que percorreram 3.295 km, chegando ao seu destino no dia 30 de novembro daquele ano, sob o comando do Cel. Carlos Flores de Paiva Chaves. (foto 10)

Foto 10 - Operação Natal, acampamento. (EsMB)

         Toda a sorte de infortúnios foram sendo sanados diante das dificuldades, que só para se ter uma idéia, foi preciso que a Força Aérea Brasileira, jogasse de paraquedas motores para algumas das viaturas, que reparadas no local, prosseguiram a viagem.

         Esta operação foi um curso prático da EsMM em tempo real aos seus alunos que após esta missão retornaram via área para o Rio de Janeiro.

         Em 1960 com a criação do Quadro de Material Bélico no Exército Brasileiro, a denominação da EsMM passa a ser ESCOLA DE MATERIAL BÉLICO – EsMB, nome que se mantém até nossos dias ocupando o mesmo quartel desde 1938. (Foto 11)

Foto 11 -EsMM passa a ser EsMB (autor)

        Modernizada em 1989, a EsMB construiu novas instalações ao lado das antigas e passou a ministrar cursos de armamento, munições, instrumentos de direção e controle de tiro.

        Em 1996 a parte de blindados (doutrina e emprego) deixou a EsMB, indo para o recém criado Centro de Instrução de Blindados General Walter Pires, também no Rio de Janeiro.

        A missão da EsMB hoje em dia é:
                  Complementar o conhecimento relativo à manutenção dos Oficiais do Quadro de Material Bélico; Especializar Oficiais das Armas e do Serviço de Intendência em manutenção de Material Bélico; Formar, especializar e aperfeiçoar sargentos para o desempenho de cargos previsto para Sargentos de Material Bélico; Realizar estágio sobre manutenção do material bélico para oficiais e sargentos de outras Forças Singulares, Forças Auxiliares e das Nações Amigas; Cooperar para a formulação e o desenvolvimento da doutrina referente à manutenção do material bélico e Ministrar estágios sobre manutenção de Material Bélico.

        A EsMB ocupa hoje uma área de 14.269.374,86 m2, sendo 115.221,00 m2 de área construída, e anualmente passam por ela 650 alunos, divididos em Cursos de Especialização e Extensão para Oficiais e Cursos de Formação, Aperfeiçoamento e Especialização para Sargentos. (foto 12)

Foto 12 A EsMB atualmente. (EsMB)

        Ela é responsável, na área de blindados, pelos Cursos de Manutenção de chassi da VBTP M-113, VBR EE-9 Cascavel, VBTP EE-11 Urutu, torre e chassi dos VBC M-60 A3TTS, VBC Leopard 1 A1, VBC OAP M 109 A3.

        Mantém o lema do primeiro comandante (Cap. Paiva Chaves) da Sub-Unidade Escola Motomecanizada que é - NÃO ESPERE, FAÇA. - e sem dúvida ainda ostenta a designação de BERÇO DOS BLINDADOS e TEMPLO DA MANUTENÇÃO no Exército Brasileiro.



   (1) - in Crônica Histórica – Do CIMM à EsMB Edição Comemorativa dos 40 anos de formatura da Primeira turma de Oficiais. Gen. R/1 Umberto Peregrino, pág. 7, EsMB, novembro 1979)
   (2) - in Brasil, Potência Militar – 5ª Edição, de autoria de General Manoel Meira de Vasconcellos, Livraria e Editora Valverde, Rio de Janeiro, 1943, pág. 29/31.