UM OLHAR SOBRE O PASSADO
A FÁBRICA DE ESTOJOS E ESPOLETAS DE ARTILHARIA EM JUIZ DE FORA



 

 

 

          A Fábrica de Estojos e Espoletas de Artilharia – FEEA – criada em Juiz de Fora, MG, em 20 dezembro de 1933, pelo Decreto 23.624, teve como base a compra de uma fábrica alemã, moderna para os padrões da época e que tinha como missão produzir munições de artilharia para o Exército Brasileiro que tentava se modernizar nesta década.
          Com o advento da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) produziu-se grande quantidade de munição, a maioria de origem norte-americana, de diversos calibres, para atender as demandas do Exército Brasileiro dentro de seu território, reforçando desta maneira as unidades de artilharia que passavam por grandes transformações na primeira metade dos anos 40, quando o governo e o comando aliado se aperceberam de uma ameaça real ao território brasileiro pelos países do eixo, principalmente na área do nordeste.
          Em 1977 a FEEA foi absorvida pelo IMBEL – Indústria de Material Bélico do Brasil, então criado pelo governo Geisel, que absorveria todo o parque fabril militar brasileiro.
          Dois anos mais tarde, surgiram os primeiros contatos para que a empresa privada ENGESA – Engenheiros Especializados S/A assumisse o controle da unidade fabril de Juiz de Fora, uma vez que ela teria melhores condições de atualizar e modernizar esta unidade, transformando-a numa das mais modernas empresas do gênero em toda a América Latina.
          Após esta fusão, a velha FEEA passou a denominar-se ENGEVÍDEO S/A e mais tarde teve seu nome alterado para ENGESA QUÍMICA S/A e após a falência do grupo Engesa em 1993 ela retorna novamente para o controle do Exército através da IMBEL e passa a se chamar Imbel - Fábrica de Juiz de Fora – FJF, que se mantém até os dias de hoje.
Sem sombra de dúvidas o melhor período vivido por esta fábrica foi a partir da modernização efetuada pelo grupo Engesa, o qual chegou a iniciar a construção de uma nova fábrica nos terrenos situados na outra margem do rio Paraibuna que a corta, numa área gigantesca, onde existe até hoje o esqueleto inacabado de um prédio todo em concreto com aproximadamente três andares, enterrado dentro de um barranco, onde estava previsto a montagem de uma linha de produção de munições de diversos calibres, na ordem de 400.000 projéteis ano, para exportação e para atender a demanda, sempre pequena, do Exército Brasileiro.
          O projeto era grandioso, uma linha de produção totalmente automatizada, em todos os processos até o embalamento em cunhetes de madeira e daí enviados para os clientes tanto por via férrea como rodoviária.
          Só para se ter uma idéia, a FEEA ocupa uma área de 2,2 milhões de km2, com 44.000m2 de área construída, e chegou a ter 800 funcionários diretos, gerando outros 2000 empregos indiretos.



Vista da fábrica quando Engesa Química S/A , final dos anos 80

          Foi fabricante de uma variada gama de munições, que iam deste o calibre de 30 a 155mm, passando pela produção de foguetes de artilharia, granadas de bocal para fuzis, munições para morteiros e obuseiros.
          O requinte era altamente sofisticado, incluindo uma maquinaria de controle numérico e de vistorias com o emprego de raios-X na quase totalidade da produção, contando com um departamento de controle de qualidade com capacidade para testes requeridos pelos mais exigentes padrões militares internacionais, inovações importante na época.

Raio X
Máquinas com controle numérico

          O produto de maior sucesso foi a munição de 90mm para os canhões dos blindados sobre rodas EE-9 Cascavel, de diversos tipos, como APDS (KE), HEAT (alvos blindados – penetração de 250mm), HE (antipessoal ou antimaterial), HESH (alvos blindados e barreiras de concreto), AP, WP (geração de fumaça ou incendiária), APDSFS (flecha – alvos blindados – penetração de 50cm) , SHRAPNELL (antipessoal) e CANISTER (estas três últimas em fase de desenvolvimento à época). Foi a única a produzir munição de 90mm no Brasil.


Munições de 90mm

        Boa parte da produção ia para um dos grandes compradores de produtos militares brasileiros, o Iraque, na época um bom aliado, hoje transformado em inimigo público número um, pelos Estados Unidos.
        Os números da quantidade de munições produzidas e vendidas são, obviamente, segredo militar, muito embora sabe-se hoje que o Iraque adquiriu 364 blindados EE-9 Cascavel, a Líbia 400, a Colômbia 128, o Chipre 124, o Chile 106, o Zimbabwe 90, o Equador 32, o Paraguai 28, a Bolívia 24, o Uruguai 15, o Gabão 12, o Suriname 6 e o Brasil 409, o que nos dá a dimensão do grande volume produzido, levando em conta que o Iraque se encontrava em guerra com o Irã, a qual durou quase dez anos.
        Uma particularidade muito interessante sobre a munição vendida ao Iraque era a de que, devido ao baixo índice de alfabetização de seus soldados, foi necessário acrescentar na base das munições um pequeno retângulo com diversas cores, as quais ajudavam na identificação de qual tipo era a munição, evitando-se, deste modo, qualquer confusão na sua utilização.
        Outro importante desenvolvimento foi a munição de 90mm APDSFS, mais conhecida como flecha, uma novidade para aquele momento, e com capacidade de perfurar uma chapa de aço de 50cm de espessura. Esta munição é empregada regularmente hoje nos mais modernos carros de combate da atualidade, inclusive foi uma das responsáveis pela vitória aliada nas últimas duas guerra do golfo, só que hoje o calibre é de 120mm.


Munição flecha – capaz de perfurar 50cm de blindagem

Na segunda metade dos anos 80 foi cogitada a produção em suas dependências do então recém criado míssil PIRANHA, resultado das experiências desenvolvidas pelo Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA), de São José dos Campos, míssil este que iria equipar os aviões AMX da Força Aérea Brasileira, então uma das novidades produzidas pela Embraer em parceria com os Italianos, mas que acabou não se concretizando.
A Engesa Química produziu também munições de 40mm antiaérea, auto-explosiva, tanto para impacto direto como para fragmentação, dos tipos 40 G HE-T e 40 G TP-T, com alcance de 4.000m.
Da fábrica de Juiz de Fora saíram, ainda, munições para canhões sem recuo nos calibres de 57 e 106mm dos tipos 57R-TP (exercício), 57R HE (antipessoal ou antimaterial), 57R HEAT (contra alvos blindados – penetração de 76mm), 106R HESH (alvos blindados, antipessoal e antimaterial) e 106R HEAT (alvos blindados) e munições para obuseiros nos calibres de 105 e 155mm dos tipos 105H HE (antipessoal e antimaterial), 105H SMOKE-WP (geração de fumaça ou incendiária) e 155H HE (antipessoal e antimaterial).
Produziu-se ainda munição para morteiros de 60, 81 e 120mm dos tipos 60M HE (antipessoal e antimaterial), 60M TP (exercício), 81M HE (antipessoal e antimaterial), 81M TP (exercício), 120M TP (exercício) e 120M HE (antipessoal e antimaterial).

1 – 90mm TP-T
2 – 90mm HEAT-T
3 – 105mm HE-T
4 – 90mm HESH-T
5 – 155mm HE
6 – 90mm SMOKE-T
7 – 90mm HE-T
8 – 40mm TP-T e HE-T
9 – Granada de bocal para fuzil FAL antipessoal
10 – Granada de bocal para fuzil FAL anticarro
11 – 57mm TP-T; HEAT-T para canhão sem recuo
12 – 60mm HE para morteiro
13 – 81mm HE para morteiro
14 – Espoleta para munição de 105mm, 155mm, 75mm e morteiro 4.2”

          Este Parque Industrial foi muito importante no apoio ao desenvolvimento de empreendimento na região, executando trabalhos em suas oficinas de ferramental, precisão, mecânica pesada e fundição, o que trazia recursos extras ao seu caixa.
          Hoje a situação desta fábrica da IMBEL é temerária, conta com um corpo técnico importante e perto de 120 empregados, mas deixou há muito de produzir munições, pois o país já não mais produz suas munições de 90mm. Há algum tempo montou munições para a Malásia, visto que quem detém a patente de produção é uma empresa inglesa, da qual existe um braço dentro da Imbel, que é a South América Ordnance, cuja sede é junto a esta fábrica aqui em Juiz de Fora.
          Tentou-se manter algum tipo de produção, transferindo a parte de cutelaria de Itajubá para aqui, mas também já não produz facas e outros componentes atualmente.
          Esta fábrica tem uma grande importância para a o país e principalmente para a nossa região, mas ela corre muitos riscos, principalmente agora que a Imbel está sob nova direção, não que o novo presidente não saiba das dificuldades desta unidade, aliás, é uma pessoa altamente qualificada para o cargo, visto que quando era Diretor de Recuperação e Fabricação do Exército, levou adiante um dos mais importantes e ambiciosos projetos que está sendo desenvolvido atualmente pelo Arsenal de Guerra de São Paulo, a revitalização dos carros blindados EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu, dando-os uma sobrevida até 2015, quando acredita-se serão substituídos pela Nova Família de Blindados sobre Rodas em estudo hoje no Exército Brasileiro.
          É imperativo que esta fábrica continue a funcionar a plena carga, com novos projetos, investimentos e produtos. O país não pode ficar dependente do exterior, é suicídio. Nossas autoridades precisam compreender o termo Defesa. Este país teve num passado recente um grande desenvolvimento nesta área, primordial para se manter no mundo atual, mas a falta de visão estratégica está nos levando à ruína, precisamos acordar...


Foguetes 108R para os lançadores múltiplos de 16 tubos produzidos em Juiz de Fora.