OS PRIMÓRDIOS DA GUERRA DO NARCOTRÁFICO NA COLÔMBIA

 

 

          A problemática do narcotráfico na Colômbia não é mais assunto de simples alçada policial. É problema nacional, continental e mundial. As fronteiras da droga alargaram-se. Os perseguidos pelos cartéis de Medellín e de Cali não têm para onde ir. Há vários anos, o ex-ministro da Justiça que tinha jogado duro contra os barões da coca, foi nomeado embaixador em Budapeste. Nem a distância nem a imunidade diplomática o protegeram das balas dos narcos, que contrataram os serviços da máfia italiana, para que praticassem o atentado em que ficou gravemente ferido o diplomata colombiano.

         Pretendo desenvolver neste artigo três aspectos relacionados ao fenômeno do surgimento e da consolidação do narcoterrorismo na Colômbia: o econômico, o político e o cultural. Tentarei mostrar as perspectivas que restam aos colombianos neste início de milênio, para superarem a guerra que os narcos declararam ao Estado e encontrarem os caminhos da convivência pacífica, num país que ao longo do século XIX sofreu 65 guerras civis e que ao longo do século passado e no início deste experimenta o segundo conflito interno, tendo vivido em estado de sítio praticamente ao longo dos últimos 40 anos. Concluirei refletindo acerca dos riscos que decorrem da situação colombiana para o Brasil.

         1) Aspectos econômicos.- Não há dúvida quanto ao fato de que o narcotráfico é hoje, de longe, o negócio criminal mais rendoso do mundo. No caso da economia colombiana, segundo estudos realizados no início da década passada [cf. Gómez, 1990: 226-227], os ingressos líquidos do tráfico de drogas foram aproximadamente os seguintes, ao longo dos anos 80 do século XX: 2,2 bilhões de dólares em 1981; 3,8 bilhões em 1982; 2,2 em 1983; 1,4 em 1984; 1,4 em 1985; 1,3 em 1986; 0,8 em 1987 e 0,7 em 1988. Na década, os ingressos foram de 13,8 bilhões de dólares, quantia suficientemente grande como para pagar a dívida externa da Colômbia, que os capos ofereciam liquidar caso o governo os deixasse “trabalhar” em paz. Já no terreno internacional, conforme cálculos do cientista político boliviano Gonzalo Chávez, “o mercado do tráfico de drogas nos anos 80 movimenta aproximadamente nos Estados Unidos 100 bilhões de dólares e rende aos países produtores da América Latina mais divisas que a exportação de seus produtos tradicionais” [Chávez, 1989: 40].
Tamanho volume de recursos concentrados nas mãos dos narcotraficantes, produziu sérias distorções na economia dos países produtores de drogas. Na Bolívia, por exemplo, acelerou-se o descompasso entre a economia formal e a informal; ao passo que o PIB formal teve uma queda da ordem de 19,2% entre 1981 e 1985 e o PIB per capita caiu em 19,4%, o PIB subterrâneo “associado basicamente à produção de cocaína” teve, no período apontado, um fantástico crescimento da ordem de 493% [cf. Chávez, 1989: 43]. Na Colômbia, os recursos obtidos pelos narcotraficantes têm produzido a fuga de divisas (4,2 bilhões de dólares entre 1978 e 1988), o financiamento ao contrabando (8,8 bilhões de dólares entre 1981 e 1988), a concentração da propriedade rural (os narcotraficantes apropriaram-se de 4,3% da terra cultivável na Colômbia), a concentração da propriedade urbana (20% aproximadamente das transações em propriedade raiz), o progressivo crescimento do mercado de trabalho a serviço das máfias (250 mil empregos, equivalentes a 3% da força trabalhista do país), a invasão da economia formal pela informal (os cartéis da coca, através de testas-de-ferro, passaram a controlar empresas variadas que iam desde farmácias até redes de TV, emissoras de rádio e linhas aéreas) e o financiamento à narcoguerrilha e ao terrorismo. Na Colômbia, de forma semelhante ao acontecido na Bolívia, o desequilíbrio causado pela droga levou a que o PIB legal crescesse na década de 80 do século passado 3% ao ano, enquanto o PIB subterrâneo cresceu 7%. De outro lado, a presença maciça de divisas estrangeiras na economia colombiana produziu, ao longo das décadas de 70 e 80, um fenômeno peculiar: o dólar paralelo era cotado mais baixo que o oficial [cf. Kalmanovitz, 1990: 19-21].

         Se o narcotráfico representa, como foi assinalado, uma força econômica poderosíssima nos países produtores, é também um negócio de proporções incalculáveis nos países consumidores, especialmente nos Estados Unidos. Segundo informe de Charles Bowsher, Controlador-Geral do governo norte-americano, “a maioria dos especialistas concorda em identificar a cocaína como a droga que coloca o problema mais sério dos anos oitenta” [Bowsher, 1990: 81]. Utilizando dados da Agência Anti-Narcóticos (DEA), Bowsher afirma que a pureza promédio da droga vendida na rua dobrou entre 1981 e 1986, ao passo que os preços caíram. O número de norte-americanos maiores de 12 anos arrolados como “consumidores atuais” aumentou em 38% no período apontado, passando de 4,2 milhões a 5,8 milhões. (No final do segundo governo Clinton, a Casa Branca estimava em 12 milhões o número de narcodependentes). As toneladas de cocaína consumidas por ano também aumentaram, passando de 31 em 1982 para 72,3 em 1985. (Dados de 2003 revelam que o consumo nos Estados Unidos chega hoje a 80 toneladas de coca por ano). Ainda segundo o Controlador-Geral americano, “o custo econômico que a narcodependência representou para os Estados Unidos em 1983 chegou a 59,7 bilhões de dólares”, sem contar as perdas sociais nem o preço pago aos traficantes pelos consumidores, uma soma bem maior do que o PIB colombiano da época, estimado em 40 bilhões de dólares. O comércio global de drogas proibidas, anualmente e a nível mundial, é calculado em 500 bilhões de dólares. Só nos Estados Unidos, a cocaína atinge 33% das vendas de narcóticos [cf. Sarmiento e Ospina, 1990: 29].

         Cada dia fica mais claro que a produção de narcóticos e um negócio amplamente estabelecido a nível mundial, e que obedece às leis da oferta e da procura. Como frisa o professor Francisco Thoumi da Universidade do Estado da Califórnia, “o mercado de narcóticos está integrado a nível mundial e, consequentemente, as utilidades nele obtidas são determinadas pelas condições da demanda e da oferta mundiais” [Thoumi, 1990: 50]. Diante desse fato acontecem dois fenômenos: de um lado, a ação dos governos é descoordenada, insuficiente e ineficaz. De outro, o dinheiro da droga tem ingressado no mercado financeiro, notadamente nos Estados Unidos, gerando forte pressão em favor do lavado de dólares provenientes do narcotráfico. Em relação ao primeiro fenômeno, o professor Thoumi afirma que “até agora os produtores e os consumidores de narcóticos têm agido de forma coordenada, enquanto cada governo afetado tem tratado de culpar os governos de outros países que participam do narcotráfico. Dado que o tráfico de narcóticos é ilegal e que o seu consumo gera custos sociais muito altos, os governos devem intervir no mercado. Mas essa intervenção fracassou até agora pois não tem sido coordenada, nem tem procurado metas comuns e, em muitos casos, não tem sido executada com o rigor requerido para que fosse eficaz”. De fato, por exemplo, a reação americana é, em termos financeiros, bastante inexpressiva, ridícula até: em face de um negócio de 100 bilhões de dólares anuais, o governo Reagan concedeu à Colômbia, principal fornecedor de coca aos Estados Unidos, aproximadamente 20 milhões de dólares por ano para combater o narcotráfico; trata-se de uma soma muito pequena, “dificilmente suficiente para apoiar uma séria batalha contra a multimilionária indústria da droga”, segundo frisa o professor Bruce Bagley, da Universidade de Miami [Bagley, 1990: 73]. (Em relação a este ponto a situação passou a um plano diferente a partir do segundo governo Clinton, quando foi aprovado o "Plano Colômbia", que passou a destinar ao combate ao narcotráfico uma quantia bem maior, que beira l,5 bilhão de dólares).

         De outro lado, os produtores de drogas possuem hoje uma mobilidade muito grande, não se limitando a um único país e buscando novas fronteiras na medida em que a produção é atacada num determinado lugar. Quando da erradicação dos cultivos de maconha na Colômbia e no México, nos anos 70 e 80 do século passado, por exemplo, os produtores começaram a cultivar a planta nos Estados Unidos. A propósito deste ponto, frisou o Controlador-Geral americano Charles Bowser: “Segundo os cálculos, os cultivos em território estadunidense representaram 18% da maconha disponível em 1986. Em que pese a ajuda dada pela DEA aos Estados para programas de erradicação da maconha, a oferta continuou a crescer entre 1986 e 1986. Nos 50 Estados cultiva-se maconha. A fim de evitar a detecção, os produtores resolveram cultivar a planta em áreas cobertas, deixando as áreas externas para parcelas mais pequenas e dispersas” [Bowsher, 1990: 90].

         Em relação ao segundo fenômeno atrás apontado, o lavado de dólares do narcotráfico, o professor Thoumi escreve: “O sistema financeiro estadunidense lava anualmente milhares de milhões de dólares. De fato, o governo tolera e implicitamente promove o lavado de dólares ilegais ilegítimos fugidos da América Latina, Europa Oriental, etc. Mais ainda, os empresários do setor financeiro alegam que a liberdade para lavar dólares é imprescindível para poder competir no mercado financeiro mundial com instituições de outros países. Essa prática facilita o lavado de narco-divisas, pois torna muito difícil separar os dólares ilegais legítimos dos ilegítimos”. E conclui o professor Thoumi: “É claro que esse duplo padrão põe em dúvida a seriedade do esforço anti-narcotráfico e além disso envia um sinal muito nocivo à América Latina, pois basicamente indica que o governo dos Estados Unidos aprova a cumplicidade do seu sistema financeiro na violação de leis de governos latino-americanos quando são desagradáveis. A outra cara desta moeda implica que os governos latino-americanos possam aprovar semelhantes comportamentos ilegais nos Estados Unidos” [Thoumi, 1990: 52].

         O narcotráfico é, pois, um grande negócio, fato que levou os editores da revista The Economist a afirmar que “o comércio das drogas é um raro exemplo de competência irrestrita que, de forma eficiente, baixa os preços e aumenta o consumo” [cit. Por Sarmiento e Moreno, 1990: 29]. Os economistas colombianos Libardo Sarmiento e Carlos Moreno ilustram essa competência nestes termos: “Dificilmente se encontra produto mais rentável. A rentabilidade (utilidades/custos + gastos) é próxima de 3000 por cento. Os custos da produção representam só 0,5%, e os de transporte (Colômbia – América do Norte) e gastos de distribuição (incluindo subornos) 3%, em relação ao preço final de venda” [Sarmiento e Moreno, 1990: 29]. Embora o preço da cocaína tenha caído nos últimos 10 anos (o preço do quilo de clorhidrato de cocaína passou de 60 mil para 40 mil dólares nas ruas de Nova Iorque), o consumo aumentou e os narcos têm conseguido impulsionar as plantações de coca e oferecer preços altos e assessoria técnica aos camponeses pobres da Colômbia, Peru e Bolívia.

         Terminemos a análise da variável econômica do narcotráfico destacando dois fatos importantes: se, de um lado, a droga é um grande negócio para os narcos, é um péssimo investimento para os países produtores. Embora a narco-economia represente apenas hoje 3,5% do PIB colombiano, os seus efeitos sobre o resto da economia são nefastos. Atividades outrora prósperas, como o turismo, praticamente faliram. A respeito, a Revista Semana de Bogotá, frisava: “Na Colômbia, (...) o turismo encontra-se a ponto de desaparecer. Em 1980 chegaram ao país cerca de um milhão 200 mil viajantes estrangeiros. Oito anos depois esse número caiu pela metade. Ao começar a década passada, a Colômbia recebia cerca de 10% dos turistas que chegavam à zona do Caribe e cerca de 20% dos que visitavam os países da América do Sul. Em 1988, essa participação tinha-se reduzido a 3,3% e 7,1% respectivamente” [“La casa vacía: más de 600 mil turistas perdió Colombia en los últimos 10 años”, Semana, Bogotá, no. 429, julho de 1990: pg. 48].

         De outro lado, as atividades do narcotráfico produziram na Colômbia uma concentração de renda sem precedentes, como ilustra o economista Salomón Kalmanovitz: “As exportações de maconha e cocaína têm sustentado, durante os últimos 15 anos, o acelerado desenvolvimento de uma burguesia gangster que minou a hegemonia econômica dos grupos financeiros de base oligárquica, superando também gerações mais recentes de empresários, ao obter em menos de uma década um patrimônio equivalente a pelo menos 30% da riqueza que possuem todos os colombianos dentro e fora do país, acumulada ao longo de mais de 100 anos de história contemporânea” [Kalmanovitz, 1990: 18].

         2) Aspectos políticos.- O peso econômico do tráfico de narcóticos causa, evidentemente, graves distorções na política dos países produtores e consumidores. Nos Estados Unidos, por exemplo, país consumidor por excelência, a pressão do narcotráfico tem criado, ao longo das últimas décadas, sérios problemas no que tange à administração de justiça. Poder-se-ia dizer, sem exagero, que a justiça norte-americana literalmente mergulhou na poeira dos tóxicos. O professor Ethan Nadelmann, da Universidade de Princeton, frisava a respeito: “Aproximadamente 10% dos 550.000 presos das cadeias estaduais, mais da terceira parte dos 50.000 detentos das prisões federais e uma proporção significativa dos 300.000 indivíduos confinados nas cárceres municipais foram arrestados por delitos relacionados com a droga” [Nadelmann, 1990: 65].

         Já o Controlador-Geral dos Estados Unidos, Charles Bowsher, ilustra essa situação da seguinte forma: “As prisões de delinqüentes da droga efetivadas pela DEA, pelo FBI e pela Alfândega dos Estados Unidos e a Guarda Costeira norte-americana, passaram de 30.446 em 1982 para 48.061 em 1986, o que constitui um incremento de 58%. Em 1982, a DEA tinha prendido 2.124 narcotraficantes de alto nível, tais como chefes de organizações de narcotráfico e financiadores da droga, e esse número aumentou para 6.002 em 1986” [Bowsher, 1990: 95]. Tamanho crescimento da população carcerária ligada ao narcotráfico de entorpecentes passou a inviabilizar a administração de justiça, como é o caso do Estado da Flórida onde, segundo frisa o professor Nadelmann, “os 8.506 detentos por delitos relacionados à droga e admitidos nas prisões estaduais no ano fiscal de 1987/1988, representaram um incremento de 525% em relação ao ano fiscal de 1983/1984, e 24,8% das novas prisões no ano fiscal de 1986/1987” [Nadelmann, 1990: 59].

         As distorções políticas causadas pelo narcotráfico são, contudo, mais sérias nos países produtores, que sofrem tradicionalmente com a precariedade das instituições, polarizadas ao longo de séculos ao redor de uma visão privativista, patrimonial e clientelista do poder do Estado, herdada da colonização ibérica. O cientista político boliviano Gonzalo Chávez assinala, da seguinte forma, a distorção política causada pelas máfias nos países produtores: “O narcotráfico criou uma rede de suborno e corrupção que atravessa todo o Estado, particularmente as agências estatais encarregadas de seu controle e repressão. Esta situação proporciona aos traficantes muita influência política e um eficiente esquema de informação. Os barões das drogas fazem parte de uma New Illegitimate Burgeoisie que tem conseguido fragmentar geograficamente os países produtores, constituindo encraves políticos e militares e, em alguns casos, estabelecendo territórios livres junto com grupos guerrilheiros; desta maneira os Estados boliviano e colombiano são questionados na sua própria essência: sua territorialidade. A divisão político-administrativa criada pelo Estado é substituída por zonas produtoras de drogas, divididas de acordo com os interesses da máfia e da guerrilha, onde as leis, a autoridade e mesmo até a moeda nacional não têm validade. O Estado, além de perder o controle sobre a economia, perde hegemonia, legitimidade e autoridade. Os barões da cocaína intervêm na política dos países produtores independentemente do sistema de governo imperante, financiam campanhas para senadores e deputados e golpes de Estado (como na Bolívia e na Colômbia)” [Chávez, 1989: 44].

         É indiscutível o poder político da máfia colombiana. Em 1978 o embaixador norte-americano em Bogotá, Diego Ascencio, afirmava: “os narcotraficantes (colombianos) são tão fortes, em termos de poder financeiro, que poderiam ter o seu próprio partido e podem já ter comprado (...) dez membros do corpo legislativo” [apud Castillo, 1987: 224]. Nove anos mais tarde, em 1987, escrevia o jornalista Fábio Castillo, autor de uma das mais importantes obras de denúncia acerca do poder da máfia, intitulada Los jinetes de la cocaína: “hoje, afirma-se que mais de 10% dos congressistas colombianos estão vinculados a negócios relacionados com o tráfico de narcóticos e uma porcentagem semelhante recebe apoio econômico de reconhecidos narcotraficantes: quer dizer, aproximadamente 50 congressistas” [Castillo, 1987: 225]. É evidente que com o deficiente sistema de representação proporcional existente na Colômbia, o peso do dinheiro é decisivo para ganhar eleições.
Calcula-se, por exemplo, que uma campanha para presidente da República custa mais de 3 milhões de dólares; para senador, entre 120 mil e 240 mil dólares; para representante à Câmara (equivalente a deputado federal) aproximadamente 60 mil dólares; para deputado à assembléia departamental (deputado estadual) 40 mil dólares e para conselheiro em capital de departamento (vereador) entre 14 mil e 28 mil dólares. Não espanta, assim, que os dólares do narcotráfico tenham sido canalizados para eleger presidentes e representantes nos corpos colegiados. Não há dúvida quanto ao apoio financeiro dado pelos narcotraficantes para as eleições dos presidentes López Michelsen (1974-1978) e Turbay Ayala (1978-1982) [cf. Castillo, 1987: 245-254]. Os próprios narcotraficantes, em algumas oportunidades, têm-se eleito, como aconteceu com o chefão do Cartel de Medellín, Pablo Escobar Gaviria, que chegou a suplente na Câmara de Representantes em 1982, cargo que lhe permitiu obter imunidade parlamentar e visto especial para viajar aos Estados Unidos [cf. Castillo, 1987: 229].

         O efeito da crescente ingerência política dos narcotraficantes é, sem dúvida, a escalada da violência. O fato de o governo colombiano ter assinado um tratado de extradição de traficantes para os Estados Unidos, produziu uma enorme onda terrorista que, ao longo dos anos 80, custou a vida a aproximadamente 200 juizes e funcionários do judiciário. Lembremos que em 1985 a narcoguerrilha que tomou o Palácio da Justiça em Bogotá, praticamente eliminou a maioria dos juizes da Corte Suprema da Colômbia (equivalente ao nosso Supremo Tribunal Federal), bem como vários dos conselheiros presidenciais que examinavam o tratado de extradição. Seria difícil traçar aqui um quadro fiel do panorama de violência ensejado pelo narcoterrorismo na Colômbia, ao longo dos últimos 20 anos. Três candidatos à presidência, funcionários públicos do primeiro escalão, padres, professores, jornalistas, donas de casa, velhos, crianças, etc., as vítimas se contam em todos os estratos sociais e em todas as categorias. Apenas entre os militantes de um Partido de esquerda, a União Patriótica, foram assassinadas num ano e meio 1.500 pessoas. De janeiro de 1988 até agosto de 1990 ocorreram no país 1.825 seqüestros, soma que se elevou, ao longo dos anos 90, para 3.500 vítimas. Na cidade de Medellín (com aproximadamente 3 milhões de habitantes e considerada a capital mundial da coca) ocorreram de janeiro a julho de 1990, 75 atentados a bomba, 95 seqüestros, 200 assassinatos de policiais e 3.160 de civis. Trata-se de uma guerra civil não declarada.

         Não seria objetivo, no entanto, atribuir toda a violência colombiana à máfia do narcotráfico, embora seja ela atualmente a responsável pelo maior número de atos terroristas e tenha conseguido treinar, com ajuda de mercenários israelenses e sul-africanos, os mais eficientes esquadrões de extermínio da América Latina. À violência disseminada pelos traficantes no campo e nas cidades deve-se juntar, de outro lado, a proveniente da guerrilha, das forças armadas e dos grupos paramilitares. No terreno guerrilheiro, até a retomada das conversações de paz em 1989, cinco eram as principais organizações: Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), Exército de Libertação Nacional (ELN), Exército Popular de Libertação (EPL), Movimento 19 de Abril (M-19) e Quintín Lame, um grupo de guerrilheiros de origem indígena. A exemplo do acontecido na Nicarágua e em El Salvador, todos esses grupos se organizaram num único movimento, a Coordenação Guerrilheira Simón Bolívar. Somente as FARC (grupo guerrilheiro mais antigo da América, com 40 anos de existência) contavam em 1986 com 20 frentes de luta, abrigando aproximadamente 15 mil homens. Após as negociações de paz, iniciadas no governo de Belisário Betancur e prosseguidas no de Virgílio Barco, as FARC e o M-19 organizaram-se em partidos políticos, mas o assassinato de seus militantes por narcoterroristas e paramilitares fez fracassar o processo de pacificação.

         A violência que vive a Colômbia não é história recente. É tradição antiga. O país sofreu, entre 1948 e 1958, a mais terrível guerra civil vivida por uma nação latino-americana, com um saldo de mortos calculado entre 250.000 e 300.000. Esse conflito praticamente dizimou a população camponesa de vários Departamentos como Tolima, Huila e Meta. A proliferação dos cinturões de favelados nas grandes e médias cidades provém dessa época, como escoamento da maré humana miserável e aterrorizada que foi expulsa do campo. Quem desatou toda essa onda de violência? As oligarquias, sediadas na direção dos Partidos Liberal e Conservador. Oligarquias que, como frisa Raymundo Faoro no seu clássico livro, partem sempre do pressuposto de que o poder tem donos, sendo vetada a sangue e fogo a possibilidade de segmentos populares aspirarem a ele [cf. Faoro, 1958].

         O ano de 1936 representa, para a Colômbia, com as mudanças econômicas e políticas introduzidas pelos liberais, o início da transição da sociedade rural à urbana e industrial. As mudanças, que corresponderiam, servatis servandis, ao que foi a Revolução de 30 no Brasil, visavam a abrir o caminho para a industrialização e a inaugurar canais de participação dos operários. O inspirador dessas mudanças, o Presidente López Pumarejo, não conseguiu, no entanto, efetivá-las. As oligarquias partidárias reagiram raivosamente. Os liberais aristocráticos tentaram anular a abrangência socializante das reformas propostas. E os conservadores simplesmente se levantaram de armas na mão contra elas. Dez anos se passaram e encontramos em 1948 um líder liberal de tendência democrática, Jorge Eliécer Gaitán, que tentou de novo efetivar as reformas modernizantes de López Pumarejo. Dono de inegável carisma, Gaitán ameaçava se eleger Presidente do país. Foi assassinado em 9 de abril de 1948, dando ensejo à revolta popular denominada de “El Bogotazo”. Aí começou a fase contemporânea da violência colombiana [cf. Tirado, 1971; Urán, 1983].

         O padre e sociólogo Camilo Torres exprimiu com clareza a dinâmica desse fenômeno, nestes termos: “A agressividade pode ser individual ou social. A agressividade individual é o resultado de um desejo de destruição originado numa frustração. A destruição é buscada como uma compensação e como um meio de reconstrução do que não se conseguiu. A agressividade social possui as mesmas características, mas alargadas ao grupo social. A agressividade pode ser manifesta ou latente, segundo o desejo de destruição possa se realizar ou não. A agressividade social em geral se encontra naqueles países nos quais há frustração de aspirações. Se essa frustração de aspirações forma parte da consciência social, e no interior das instituições sociais encontramos instrumentos violentos e eficazes de realização, a agressividade, então, tornar-se-á manifesta” [Torres, 1985: 106-107].

         Foi isso o que aconteceu na Colômbia: frustrado a partir dos acenos de modernização e liberdade que foram encenados e anulados pelas oligarquias nas décadas de 30 e 40, o campesinato colombiano, “por uma espécie de ação diabólica – frisa o sociólogo Fals Borda - foi induzido a identificar os seus inimigos entre os seus próprios vizinhos e parentes”; essa foi a etapa da violência que ensejou a luta a morte entre liberais e conservadores até 1958. A hodierna fase da violência – chamada de etapa “dos filhos da violência” – começou a se gestar durante o chamado “Frente Nacional” (1958-1974) e eclodiu com força quando os partidos tradicionais se recusaram a permitir o surgimento de partidos de representatividade popular e foram boicotadas as principais reformas econômicas e políticas reclamadas pela população. Os “filhos da violência”, camponeses famintos e operários desempregados, juntaram-se a jovens universitários desiludidos de tudo e passaram a engrossar as fileiras dos movimentos guerrilheiros. A cooptação de uma parcela dessas massas pelos narcotraficantes foi questão de tempo e viu-se facilitada pelo estranho raciocínio de alguns guerrilheiros que, estimulados por Cuba, passaram a achar que o incremento do narcotráfico ajudaria a derrotar o gigante imperialista e, de outro lado, daria lugar a preciosas divisas para a compra de armamento. Depois de algum namoro entre guerrilheiros e narcos, a aliança se desfez, em decorrência da posição contrária ao narcotráfico do líder do ELN, o padre espanhol Manuel Pérez, mas voltou com força total quando, após a queda do Muro de Berlim, as FARC, notadamente, passaram a raciocinar de maneira pragmática: não interessava a origem do dinheiro, desde que este ajudasse à guerrilha. Surgiu o que o general colombiano Gustavo Matamoros (um dos que mais duramente combateu a guerrilha e o narcotráfico) batizou de “narcoguerrilha” [Cf. Pérez 1990: 22].

         As massas de jovens desiludidos que habitam na periferia das cidades colombianas, são o que poderíamos chamar de “exército marginal de reserva” da guerrilha, do narcotráfico e dos organismos paramilitares. Calcula-se que de cada 100 pessoas assassinadas em Medellín, 70 estão na faixa dos 14 aos 19 anos. Esses jovens desenraizados e sem esperança vendem os serviços de “sicariato” (justiceiros) a qualquer um. Segundo levantamento feito pela jornalista Laura Restrepo, só nessa cidade havia, em dezembro de 1989, mais de 150 grupos de extermínio integrados por adolescentes. Esses fatos levaram a mencionada jornalista a escrever que “uma nova geração de colombianos não sabe que é possível morrer de velhice” [Restrepo, 1990: 27]. A violência, poderíamos afirmar com o historiador Eric Hobsbawn, “procede de uma revolução social frustrada. Isso é o que pode acontecer quando as tensões revolucionárias sociais não são dissipadas pelo pacífico desenvolvimento econômico, nem freadas para criar estruturas sociais novas e revolucionárias. Os exércitos da morte, os desenraizados, os mutilados físicos e mentais são o preço que a Colômbia paga por esse fracasso” [Hobsbawn, 1985: 23].

         3) Aspectos culturais.- A prática da violência alicerçou-se, na sociedade colombiana, numa autêntica “cultura da morte”. Na medida em que a violência apareceu no universo sociológico como a solução desesperada perante problemas não resolvidos, os atores sociais passaram a retomar, no plano cultural, uma ética do “tudo ou nada” que veio prolongar em pleno século XX o modelo da “ética da honra” do cavaleiro espanhol. Algumas caraterísticas culturológicas acompanham a essa ética: culto à morte, horror ao trabalho produtivo, preocupação com o além. Essas caraterísticas misturar-se-iam ao secular fenômeno do caudilhismo ibero-americano. A liderança dos narcos insere-se nesse contexto e passou a ser repassada ao resto da sociedade como arquétipo axiológico ideal. Algo assim como o fenômeno apontado por Oliveira Vianna em relação à influência causada, nas elites brasileiras do período colonial, pela nobreza decadente portuguesa, em face do conjunto de anti-valores que poderíamos sintetizar na expressão “espírito macunaímico” [cf. Vianna, 1958].

         Analisemos um pouco mais de perto essa questão. A ética da honra, tematizada por Max Weber [cf. 1944: II, 115], consiste num modelo de comportamento inflexível, alicerçado em princípios inegociáveis. Quem age movido por esse critério, o faz de acordo às suas convicções, “custe o que custar”. Esse modelo de comportamento deita raízes nas tradições ibéricas. Na Espanha surge, desde fins da Idade Média, um tipo cultural diametralmente oposto ao do homo oeconomicus que foi se firmando na Europa ao longo da modernidade, acompanhando o fenômeno do nascimento e expansão das cidades, origem da burguesia. As caraterísticas do tipo castelhano, do cavaleiro cristão que García Morente define como líder de uma causa e possuidor de virtudes nobiliárquicas como o desejo de grandeza, a valentia, o orgulho, a valorização da intuição sobre o cálculo, o personalismo e o culto à morte, modelaram-se ao longo de toda a história da Espanha, sobretudo durante o episódio que foi tão marcante na vida do povo espanhol: a luta de vários séculos contra os muçulmanos, em defesa da sua própria existência e da cristandade [cf. Jaramillo, 1974; Castro, 1950].

         Essa defesa da identidade hispânica perante o invasor, foi percebida desde o início como a defesa de si mesmo. “Ao terminar essa luta – frisa o historiador colombiano Jaramillo Uribe – e ao se iniciar a época moderna, que já vinha amadurecendo e se gestando no Continente e nas Ilhas Britânicas, tinha-se constituído na meseta castelhana um tipo de homens cujas virtudes não eram as do homo oeconomicus. A descoberta da América e a luta pelo Império que inesperadamente lhe doava a história, firmaram o seu caráter cavalheiresco e heróico e terminaram por frustrar definitivamente a formação, em Castela, do tipo que construiu a economia moderna do capitalismo, e com isso a possibilidade de que a Espanha assimilasse o espírito das novas formas de vida, sobretudo o moderno ethos do trabalho” [Jaramillo, 1974: 9]. Esses fatores fizeram com que a conquista espanhola fosse uma empresa eminentemente predatória, em que o enriquecimento vinha não a partir do trabalho produtivo (banido pelas elites como atividade de párias e não de senhores), mas da guerra de conquista justa contra o infiel. Surgiu, assim, no universo ibero-americano, a idéia da apropriação heróica e rápida da riqueza. Consolidou-se, dessa forma, o arquétipo improdutivo e corrupto que continua a inspirar, hodiernamente, o comportamento social de aventureiros e narcos.

         Apenas para dar um exemplo da vigência desse modelo ético na sociedade colombiana, tomemos o depoimento da jornalista Laura Restrepo, que entrevistou adolescentes ainda não cooptados pela máfia em Medellín. Afirma a mencionada jornalista que ali desenvolveu-se uma cultura da morte “uma forma coletiva de necrofilia que se ceva, particularmente, nas crianças e adolescentes, normalmente alheios à maquinaria da guerra mas que direta ou indiretamente se convertem em peças dela. Não se trata já do justiceiro profissional, mas do rapaz comum, de extração social média e média baixa, que convive com os demais na rua ou na escola, que ainda se segura à saia da mãe e que é muito jovem para ser classificado como sujeito penal. Que nem sequer é o pior – o mais cruel, o mais degenerado – mas muitas vezes o melhor: por corajoso, por carismático e por belo. Mas que adquiriu um vício rude: gosta de matar. Os mortos que carrega consigo dão-lhe prestígio. Nem sempre pode cobrar dinheiro por eles, mas servem-lhe para ganhar liderança, namorar garotas e se fazer respeitar. Os seus únicos ídolos são Pablo Escobar e o goleiro René Higuita, porque antes não eram ninguém e agora são. O jovem aspirante a justiceiro matou dez, doze, impõe medo e respeito, é alguém. O preço dessa identidade é alto – morrer antes de chegar a adulto – mas está disposto a pagá-lo” [Restrepo, 1990: 31].

         A rápida escalada do sucesso através de meios heróicos e violentos é acompanhada, na mentalidade dos jovens aspirantes a justiceiros, por outras caraterísticas socioculturais como o machismo, a preocupação com o além e a valorização da mãe. Filhos de famílias em que a ausência do pai é a regra, os futuros justiceiros são verdadeiros monumentos ao complexo de Édipo. A respeito, escreve Laura Restrepo: “Substituem o pai ausente em tudo, menos na cama da mãe, o que gera neles uma confusão dolorosa de papéis, com desgarramentos psíquicos e ataques patológicos de ciúme. A vida lhes exige que sejam o que não podem ser: esposos de suas mães e pais dos seus irmãos. A contradição é insolúvel e, como tantas outras nas suas vidas – substituir a lei, viver como ricos sem ter emprego - só se soluciona com a morte. Todos, invariavelmente, justificam os seus atos de violência contra os demais e contra eles mesmos, com idênticas palavras: faço isso pela velha. Pela velha roubam, matam, fazem-se matar. Eu vou morrer cedo, mas que me lembrem por ter dado uma boa geladeira à minha mãe, disse Xavier, de 15 anos” [Restrepo, 1990: 30-31].

         Nesse universo em que a mãe ocupa o centro, a religião desabrocha a partir do tradicional culto mariano. “Os jovens aspirantes a justiceiros – escreve Laura Restrepo – levam no peito e nos tornozelos escapulários de sua protetora, a Virgem do Carmo”. De outro lado, rezam a novena de São Judas Tadeu, para se saírem bem nos trabalhos e nas quartas-feiras de cinzas vão às igrejas para receberem a cruz. Nos braços costumam fazer tatuagens com as palavras Deus e mãe, que resumem as suas devoções preferidas. Segundo o cientista político Alonso Salazar, “o dia do ano em que mais mortos há em Medellín é o dia das mães, porque nessa data os homens acordam com a honra à flor da pele” [apud Restrepo, 1990: 30].
Os aproximadamente 150 grupos de extermínio existentes em Medellín e integrados por assassinos adolescentes compõem-se, geralmente, de 200 membros cada um. Vendem os seus serviços principalmente à máfia do narcotráfico, embora também os prestem às organizações guerrilheiras ou atuem como grupos de justiceiros ou polícia mineira. Um desses grupos dedicou-se a acabar com bandidos comuns e drogados no bairro em que residia. Eis o esclarecedor depoimento do chefe desse grupo, que poderia muito bem residir numa das favelas cariocas ou na Baixada Fluminense: “Destruímos as bocas-de-fumo e atacamos o consumo da droga, porque daí provém grande parte da decomposição da gente. Num dia justiçamos cinco moleques porque eram casos perdidos de dependência. Já tinham sido advertidos, mas nunca houve forma de recuperá-los, porisso os matamos. Criamos uma rede de informações por todos esses setores, com a mesma gente da comunidade. As senhoras, as crianças, os velhos: todos eles nos avisam acerca da presença de assassinos e de estranhos. Só estamos respondendo aos problemas que o governo não resolve. Aqui a polícia nunca sobe e quando o faz torna-se cúmplice dos ladrões. Entendemos que é por causa do desemprego que muita gente opta por essa vida de delinqüência: se estes bairros tornaram-se um inferno, não é por culpa da gente, mas do governo. Mas as coisas já foram longe demais. Não há mais remédio que optar pela violência para defender a tua vida e a da comunidade” [apud Restrepo, 1990: 31].

           4) Considerações finais.-
Nessa encruzilhada de narcotráfico e violência em que se encontra, que alternativas se descortinam para a sociedade colombiana? Diria, em primeiro lugar, que a tradicional medida da repressão policial e militar pura e simples é insuficiente, principalmente pela concepção equivocada que, ao longo das décadas passadas, presidiu a atuação das Forças Armadas colombianas, no contexto da falida perspectiva da segurança nacional. A respeito, afirmava um especialista do governo: “Tudo na Colômbia, desde os tempos da Independência, está desenhado em matéria de segurança e defesa com base na idéia de enfrentar um inimigo externo. E guerras externas, em forma, só tivemos uma, contra o Peru, enquanto que guerras civis e conflitos irregulares contra forças guerrilheiras ou paramilitares, ou contra grupos de bandoleiros e terroristas, tivemos aos montes” [in: Semana, 1990: 23]. Essa errada concepção se revela em dois aspectos: critérios falhos para o aparelhamento das Forças Armadas e para as promoções. No relativo ao primeiro item, frisa o mencionado especialista: “Gastaram-se 90 milhões de dólares para reparar os submarinos, enquanto a Armada somente conta com cinco navios para controlar as dezenas de rios por onde passam as armas e a pasta de coca”. No tocante ao segundo item, frisa a mesma fonte: “Os critérios de antigüidade nas promoções deveriam ser substituídos por critérios de desempenho, para valorizar o oficial de campo sobre o oficial de escritório”. É claro que esta realidade começou a mudar recentemente, após a eleição do Presidente Uribe Vélez, em 2002. O novo mandatário pôs em execução ampla política de profissionalização das Forças Armadas, que tem feito com que a guerra contra os narcoguerrilheiros comece a ser vencida pelo governo.

         Ainda no contexto da falência da solução militar, convém levar em consideração a errada política repressiva norte-americana, alicerçada em intervenções punitivas dos marines, como aconteceu no Panamá. Além de não produzirem os efeitos almejados em termos de freio ao consumo de narcóticos, (nem sequer da parte dos próprios soldados americanos, pois segundo foi confirmado, ao regressar de Panamá 19 marines foram presos ao se descobrir que tinham introduzido nos Estados Unidos 44 quilos de cocaína), essas intervenções aumentam em grau perigoso o sentimento anti-yankee na região, já bastante exacerbado por sucessivos erros na política exterior norte-americana, ao longo do século XX [cf. Rama, 1986: I, 587]. Como frisou com propriedade o cientista político Gonzalo Chávez, “o erro básico de percepção da política externa dos Estados Unidos é isolar o problema do tráfico de cocaína do seu contexto econômico e social (...). O narcotráfico é percebido apenas como uma questão delinqüencial-policial: daí a ênfase dada ao combate na oferta final do produto, via repressão” [Chávez, 1989: 46].

         Em que pese as falhas apontadas, duas perspectivas de caráter positivo abrem-se, a meu ver, para encarar com menos pessimismo o problema do narcotráfico colombiano. Em primeiro lugar, vai crescendo a consciência de que a questão do tráfico de drogas é um problema internacional, que atinge igualmente a produtores e consumidores e que, do ponto de vista dos países consumidores, não poderá ser equacionado senão mediante a adoção de políticas tendentes a diminuir o consumo interno de narcóticos, junto com medidas concretas que permitam aos países produtores promoverem o desenvolvimento sem precisar do narcotráfico. Há sinais de que o governo norte-americano começa a se sensibilizar diante desta nova perspectiva, especialmente a partir da “cumbre anti-narcóticos” de fevereiro de 1990 em Cartagena, que reuniu os presidentes dos Estados Unidos, Bolívia, Perú e Colômbia.


          Em segundo lugar cresce, no interior da sociedade colombiana, a consciência de que somente um diálogo nacional e a elaboração de um novo consenso político poderão deitar as bases para uma convivência pacífica. Guerrilheiros, narcotraficantes, forças armadas, Igreja, políticos, estudantes, empresários, cidadãos comuns e o próprio governo mostraram-se favoráveis à convocação de uma assembléia nacional constituinte, que substituiu, em 1991, a Carta que tinha 113 anos de existência. Se bem é certo que intenções em política não são muito, no entanto a vontade de negociar num país em que primeiro se atira e depois se pergunta, já é um progresso significativo. Esse clima de moderação prevaleceu na Colômbia até o final do governo de César Gaviria, em 1997. Prova desse clima foram as palavras de Fábio Ochoa, um dos patriarcas do Cartel de Medellín, porta-voz, em 1990, dos chamados extraditáveis. Eis as palavras conciliatórias do conhecido mafioso: “Esta guerra se perdeu; o importante é que na vitória não haja vinganças (...) Nós sempre achamos que temos direito a uma negociação como a que se está fazendo com a guerrilha. Se os dois bandos cometeram os mesmos pecados, por que cobrá-los só de um? (...). Aceitemos que toda essa luta por uma negociação fracassou e que não resta mais nada do que se entregar à justiça. Pois isso seria possível com a condição de que fossemos encarcerados na Colômbia...” [in: Semana, 1990: 34].

         Infelizmente, no decorrer do governo seguinte, de Andrés Pastrana, (entre agosto de 1997 e agosto de 2002), o governo colombiano caiu na cilada de suspender o controle militar firme sobre os guerrilheiros, passando a tratá-los como força armada regular e lhes entregando uma área do tamanho do Estado do Rio de Janeiro, para que, desde ali, aderissem aos diálogos de paz. Tanta ingenuidade somente poderia ter produzido o efeito temido pela opinião pública colombiana: um acirramento da guerra, pois os terroristas tornaram-se fortes na denominada “zona de distensão”, de onde partiram para a conquista do poder. A duras penas o mandatário seguinte, Uribe Vélez, tem conseguido retomar o controle da situação, a fim de obrigar os guerrilheiros a negociar nos termos fixados pelo governo. Mas o clima atual, após as sérias derrotas infringidas aos guerrilheiros com a ajuda americana, é de moderado otimismo. Se as coisas seguirem na direção traçada pelo atual Presidente, será possível chegar a uma negociação razoável com os narcoguerrilheiros. Num início de século paradoxal como o que estamos vivendo, com as fronteiras ideológicas caindo por terra e os inimigos de ontem colaborando no plano internacional na guerra contra o terror, não seria descabido acreditar numa solução negociada para o narcotráfico e a violência na Colômbia.

         Uma indagação para finalizar: Será a Colômbia de hoje o Brasil de amanhã? - Fazer esta pergunta do "efeito Orloff" entre o Brasil e a Colômbia, certamente seria inaceitável há alguns anos atrás, tão certos estávamos os Brasileiros de sermos diferentes dos nossos vizinhos cucarachos. Aceitávamos sermos denominados, quando muito, de Belíndia, a meio caminho entre a Bélgica e a Índia. Mas sermos comparados aos Colombianos, aos Peruanos ou aos Bolivianos, nunca. Os nossos vizinhos estavam mais para uma República bananosa, enquanto que nós teimávamos em nos assemelharmos talvez à França. Isso, ao menos, culturalmente. Não foi considerada, por acaso, a Faculdade de Filosofia da USP como "um Departamento Francês no ultramar"? Não acaba de ser assinalado, outrossim, como feriado paulistano, pela prefeita petista, o 14 de Julho?
Estudioso da realidade brasileira, sempre estive atento às semelhanças entre o Brasil e a Colômbia. Cheguei até a publicar, nos anos setenta do século passado em Medellín, com apoio do Cônsul Honorário do Brasil nessa cidade, o Dr. José Aníbal Cuervo, a Revista Brasil/Colômbia, a fim de analisar os aspectos comuns das nossas duas culturas. Colombiano de nascimento e Brasileiro por opção, sempre considerei que são mais os pontos que nos aproximam cultural, econômica e politicamente.

         A questão do narcotráfico está entre os aspectos que nos assemelham. A globalização tornou explícita essa realidade. Tardamos no Brasil para tomarmos consciência desse fato. Tanto isso é verdade, que na campanha para a eleição presidencial de 1994, os candidatos não compareceram ao debate sobre combate ao narcotráfico que foi realizado, na época, em São Paulo. Em 1996, em conferência proferida na Escola Superior de Guerra, frisei: "O que está acontecendo na Colômbia, onde o Presidente da República, o Judiciário - não poucos dos seus magistrados - e boa parte dos congressistas viraram reféns dos traficantes, é uma triste realidade e um alerta. A atual situação do Rio de Janeiro, onde a população se vê obrigada a conviver com a violência imposta pelos traficantes e onde a própria polícia perdeu terreno para os bandidos, é uma prova do risco que a narcoditadura representa para a segurança do país. Não há dúvida de que o Brasil passou da condição de entreposto para o tráfico de cocaína à de produtor e consumidor. Informações recentes do chefe do órgão de combate aos narcóticos nos Estados Unidos, Lee Brown, revelavam que Brasil e México despontam como os principais fornecedores de cocaína, já competindo com a Colômbia".

         Em artigo publicado no Jornal da Tarde ("A guerra do pó", 27/10/99) destaquei que o Brasil avançou mais ainda, nos últimos anos, no seu processo de semelhança com a Colômbia, no que tange ao narcotráfico. Três etapas percorreram os colombianos nessa saga de violência e de morte: 1) a difusão da corrupção na política e na administração pública; 2) a organização de máfias na cúpula do poder, em nível regional; 3) a guerra civil, em que a quebra de valores ensejada pelo predomínio do dinheiro do narcotráfico na cúpula do poder espraia-se por todo o organismo social, de forma que as pessoas passam a agir à margem da lei, empolgadas pela convicção de que o crime compensa. O seqüestro, a extorsão, o assalto, o desvio sistemático do dinheiro público, passam a ser praticados de forma corriqueira pelas máfias organizadas em exércitos profissionais de guerrilheiros ou de paramilitares, ensejando o que denominei de clima hobbessiano, em que não há lei e todos viram reféns do "temor da morte violenta".

         O Brasil, a meu entender, já percorreu as duas primeiras etapas dessa via-crucis terrorista. A difusão da corrupção político-administrativa é coisa corriqueira, e constitui fruto perverso do longo ciclo autoritário, em que as autoridades gabavam-se do princípio falconiano: "Nada a declarar". À sombra do autoritarismo, a política converteu-se no melhor negócio. A abertura, longe de eliminar a maré da corrupção, democratizou-a no contexto do espírito patrimonialista de "locupletai-vos com o dinheiro público".

         A segunda etapa, a organização de máfias na cúpula do poder, em nível regional, está em andamento, conforme foi revelado pela CPI do narcotráfico. O crime organizado é uma realidade atuante no país, espalha a miséria e a morte do norte ao sul do Brasil e ainda tem a ousadia de revidar, em face das investigações em curso, libertando manu militari traficantes de cadeias e hospitais e ameaçando testemunhas, jornalistas e autoridades.

         O mais preocupante é que começam a aparecer sintomas da desagregação social típica da terceira etapa atrás apontada. Quais são esses sintomas? Destaquemos os mais importantes: 1) grupos de ativistas, em nome da justiça social, desconhecem sumariamente as instituições, colocando-se acima da lei; (os leitores estarão de acordo comigo em que a atitude dos líderes do MST insere-se, em muitos casos, nesse contexto. Basta intitular-se líder desse movimento para passar a debochar das instituições (com o paradoxal beneplácito do governo petista), saquear impunemente e amedrontar, em nome de uma nebulosa democracia popular, quem se opuser a eles). 2) As autoridades parecem claudicar diante da marginalidade; parece como se o exercício das funções de governo fosse uma coisa à margem da lei. Isso tem sido observado em recentes episódios de revoltas de presidiários ao longo do país. Instala-se na mente das pessoas a idéia de que o crime compensa. O fato de o governo passado ter cedido às pressões de ONGs e de alguns governos, no caso dos seqüestradores de Abílio Diniz, passou à sociedade, além de uma mensagem de fraqueza, a perversa lição de que o crime compensa, quando bem planejado e com lobbies adequadamente organizados. 3) Vive-se, nas grandes cidades, especialmente no Rio e em São Paulo, um autêntico clima de guerra civil, com cenas de bandidos muito bem armados circulando livremente em bondes do mal, seqüestros e mini-seqüestros sistematicamente praticados contra cidadãos indefesos, tiroteios deflagrados à luz do dia com as forças da ordem precariamente armadas, chacinas que nunca são apuradas, toque de recolher decretado pelos chefões de tráfico nas áreas por eles controladas, ameaças de morte às autoridades municipais, estaduais ou federais que cumprem com as suas funções, etc.

         Os passos que restam para a completa instauração do estado de guerra civil no Brasil são basicamente três: em primeiro lugar, a completa constituição de exércitos guerrilheiros ou paramilitares a serviço dos interesses do narcotráfico. Em segundo lugar, a total neutralização das autoridades, mediante o suborno, os atentados terroristas e a intimidação. Em terceiro lugar, a conquista de grandes áreas liberadas pelas organizações criminosas, seja mediante a ocupação armada pura e simples (como tem acontecido nos morros cariocas ou em alguns municípios do norte da Colômbia), seja mediante processos de pseudo-negociação em que governos de tipo populista cedem facilmente às exigências dos criminosos (como aconteceu na Colômbia com a entrega pelo governo Pastrana, aos narcoguerrilheiros das FARC, de estratégica região de 42 mil quilômetros quadrados, a partir da qual os terroristas passaram a controlar o sul do país, na fronteira com o Brasil, o Equador e o Perú).

         Não esqueçamos que o narcotráfico é, antes de mais nada, uma grande empresa multinacional, que movimenta por ano mais de 500 bilhões de dólares. Tanto dinheiro assim, serve para organizar exércitos treinados por mercenários internacionais (como fez Pablo Escobar, no início da década de 80, quando levou para a Colômbia milicianos israelenses e sul-africanos para instruir os seus esquadrões da morte). O narcotráfico conta hoje, na devastada Colômbia, com dois exércitos muito bem treinados e armados: os guerrilheiros das FARC e do ELN (que somam ao redor de 20 mil homens e que controlam a região sul do país) e os paramilitares, com aproximadamente 9 mil efetivos (e que controlam a região norte). O governo do Presidente Pastrana, eleito por 40 milhões de aterrorizados colombianos que rejeitavam o narcoterrorismo, controlava apenas e precariamente a região central do país, onde se situa a capital, Bogotá. Não exagerava ao dizer que na Colômbia o narcotráfico conseguiu balkanizar o território nacional, sob o olhar apreensivo dos vizinhos e das autoridades norte-americanas.

         A conclusão mais óbvia que salta à vista é esta: se o Brasil quiser não chegar a ser a Colômbia de amanhã deverá bater duro no narcotráfico hoje. Seis tarefas são inadiáveis: 1) Adotar uma atitude de tolerância zero com os narcoterroristas, endurecendo as leis vigentes e aplicando-as sem contemplações. 2) Formular com coragem e rapidez uma política de segurança pública, que preveja a formação de corpos de polícia especializada em luta anti-narcóticos e em seguimento de dinheiros ilícitos. 3) Detalhar o papel que, no caso, devem cumprir as Forças Armadas (cuja missão é salvaguardar a soberania nacional, seriamente ameaçada hoje, no plano interno, pelas gangues armadas de narcotraficantes no Rio e em São Paulo e, no plano externo, pelos exércitos de narcoguerrilheiros e paramilitares do país vizinho). 4) Formular uma clara política de inibição ao consumo de drogas, abandonando a atitude politicamente correta dos que dizem que a maconha é inofensiva. (Está provado que ela é a porta de entrada para o consumo de cocaína e crak). 5) Dotar à Justiça de instrumentos legais e institucionais ágeis e seguros, para que possa castigar sem dó os narcoterroristas e garantir a vida das testemunhas. Talvez valesse a pena pensar na instituição italiana e colombiana dos juizes sem rosto. 6) Pressionar, no plano internacional, através da ONU e da OEA, para que os Estados Unidos façam o dever de casa em matéria de controle ao narcotráfico: é incrível como se vaporizam, ao cruzar as fronteiras americanas, as 80 toneladas de pó de coca que os narcotraficantes latino-americanos exportam todo ano para embalar os sonhos de mais de 12 milhões de viciados americanos. É verdadeira hipocrisia, da parte estadunidense, identificar o narcotráfico como problema exclusivo de países produtores, quando os cidadãos desse país cheiram qualquer poeirinha que cruza as suas fronteiras. Esse, talvez, constitua o pesadelo antevisto profeticamente por Tocqueville, quando na Democracia na América (escrita em 1835), considerava que o maior risco para a democracia americana radicava em que, em algum momento no futuro, os cidadãos desse país colocassem o prazer acima da luta pela liberdade.


Bibliografia

BAGLEY, Bruce [1990]. “Colombia y la guerra contra la droga”. In: Economía colombiana. Bogotá,, no. 226-227 (fevereiro/março 1990): pg. 73 seg.
BOWSHER, Charles [1990]. “El problema de la droga en Estados Unidos persiste”. In: Economía colombiana. Bogotá, no. 226-227 (fevereiro/março 1990): pg. 81-100.
CASTILLO, Fabio [1990]. Los jinetes de la cocaína. Bogotá: Documentos Periodísticos, 1987.
CASTRO, Américo [1950]. España en su historia. Buenos Aires: Labor.
CASTRO Caycedo, Germán [1985]. El Karina. 2ª edição. Bogotá: Plaza & Janés.
CHÁVEZ Alvarez, Manuel Gonzalo [1989]. “Narcotráfico: um novo item nas relações entre os Estados Unidos e a América Latina”. In: Política e estratégia. São Paulo, vol. I, no. 7 (janeiro/março 1989): pg. 40 seg.
FALS Borda, Orlando [1985]. “Lo sacro y lo violento, aspectos problemáticos del desarrollo en Colombia”. In: Once ensayos sobre la violencia. Bogotá: CEREC/Centro Gaitán, pg. 42 seg.
FAORO, Raymundo [1958]. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 1ª edição. Porto Alegre: Globo, 2 volumes.
GÓMEZ, Hernando José [1990]. “El tamaño del narcotráfico y su impacto económico”. In: Economía colombiana, Bogotá, no. 226-227 (fevereiro/março 1990): pg. 14 seg.
HOBSBAWN, E. J. [1985]. “La anatomía de la violencia en Colombia”. In: Once ensayos sobre la violencia. Bogotá: CEREC/Centro Gaitán, pg. 23 seg.
JARAMILLO Uribe, Jaime [1974]. El pensamiento colombiano en el siglo XIX. Bogotá: Temis.
KALMANOVITZ, Salomón [1990]. “La economía del narcotráfico en Colombia”. In: Economía colombiana. Bogotá, no. 226-227 (fevereiro/março 1990): pg. 19 seg.
LANDAZÁBAL Reyes, Fernando (general) [1985]. El precio de la paz. Bogotá: Planeta.
NADELMANN, Ethan [1990]. “Prohibición de la droga en Estados Unidos: costos, consecuencias y alternativas”. In: Economía colombiana. Bogotá, no. 226-227 (fevereiro/março 1990): pg. 65 seg.
PÉREZ, Manuel (sacerdote e comandante do ELN) [1990]. “Nosotros hemos dicho: nada con el narcotráfico”. In: Semana, Bogotá, no. 437 (14/24 de setembro de 1990): pg. 22 seg.
RAMA, Carlos M [1986]. “Independência latino-americana”. In: Dicionário de Ciências Sociais. (Coordenação geral de Antônio Garcia de Miranda Netto). Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, vol. I, pg. 587.
RESTREPO, Laura [1990]. “La cultura de la muerte”. In: Semana, Bogotá, no. 408 (27 de fevereiro a 6 de março de 1990): pg. 27 seg.
SARMIENTO Anzola, Libardo e Carlos MORENO Ospina [1990]. “Narcotráfico y sector agropecuario en Colombia”. In: Economía colombiana. Bogotá, no. 226-227 (fevereiro/março 1990): pg. 29 seg.
SEMANA [1990]. “Extraditables: y los narcos qué?” In: Semana, Bogotá, no. 435 (4 a 11 de setembro de 1990): pg. 34 seg.
SEMANA [1990]. “La casa vacía: más de 600 mil turistas perdió Colombia en los últimos 10 años”. In: Semana, Bogotá, no. 429 (24-31 de julho de 1990): pg. 48 seg.
SEMANA [1990]. “Los narco-marines. Lo que faltaba: soldados norteamericanos involucrados en narcotráfico en Panamá”. In: Semana, Bogotá, no. 410 ( 13 a 20 de março de 1990): pg. 52/53.
SEMANA [1990]. “Por qué no cogen a Escobar: los generales en la mira de la opinión pública”. In: Semana, Bogotá, no. 419 ( 15/22 de maio de 1990): pg. 23 seg.
THOUMI, Francisco [1990]. “Algunas preguntas a los Estados Unidos difíciles de responder”. In: Economía colombiana, Bogotá, no. 226-227 (fevereiro/março 1990): pg. 50 seg.
TIRADO Mejía, Alvaro [1971]. Introducción a la historia económica de Colombia. Bogotá: Universidad Nacional.
TORRES, Camilo [1985]. “La violencia y los cambios socioculturales en las áreas rurales colombianas”. In: Once ensayos sobre la violencia. Bogotá: CEREC/Centro Gaitán, pg. 106 seg.
URÁN, Carlos Horacio [1983]. Rojas y la manipulación del poder. Bogotá: Carlos Valencia Editores.
VÉLEZ Rodríguez, Ricardo [1978]. Liberalismo y conservatismo en América Latina. Bogotá: Tercer Mundo.
VIANNA, Francisco José de Oliveira [1958]. Introdução à história social da economia pré-capitalista no Brasil. 1ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio.
WEBER, Max [1944]. Economía y sociedad. (Tradução ao espanhol de José Medina Echavarría et alii). 1ª edição em espanhol. México: Fondo de Cultura, 4 volumes.